ÁCIDO SULFÚRICO (atual amores acidos)






















REGISTRO:   2670/14 e 11.903

Textos estão protegidos pelas Leis brasileiras de Direito Autoral. É obrigatório que se solicite permissão para ser montado. Não fazê-lo será passível de ações legais. Para solicitação, falar com o autor DURVAL CUNHA  pelo e-mail: altamirando66@hotmail.com








BRASIL
Clique para ampliar



AMORES ÁCIDOS

                   PEÇA FORMADA POR UM CASAL.   3  ESTORIAS:


ÁCIDO SULFÚRICO
ATÉ QUE A MORTE OS SEPARE
O MENDIGO





ÁCIDO SULFÚRICO


PERSONAGENS:


AGENOR
LIDIANE


        Lidiane entra em cena e dá de cara com um enorme galão de ácido sulfúrico sobre um plástico preto.  Ela se espanta.
LIDIANE
Mas que diabo é isso?? (Examina o galão) Ácido sulfúrico 98 por cento! Será que o Agenor enlouqueceu?
    Entra Agenor.
LIDIANE
Ah, você está em casa! Posso saber o que esse galão de ácido sulfúrico faz aqui? É da partilha do divórcio?
AGENOR ( Tranqüilo )
De certa forma sim Lidiane...
LIDIANE
Mas  o senhor não retirou todas as suas coisas? Já não foi tudo acertado com  nossos advogados? Aliás o que o senhor está fazendo aqui, a essa hora? O combinado era vir só quando eu estivesse em casa? Eu chego do trabalho e dou de cara com você aqui! O senhor aproveitou minha ausência pra montar uma saboaria na sala? O acerto já foi feito e não será mudado.
AGENOR
Sim,foi...porem meu contador não aprovou...
LIDIANE
Como é que é? O seu “Contador” não aprovou? Eles agora também cuidam de divórcio?
AGENOR
Cuidam de dinheiro...que é a mesma coisa. Você tem noção do prejuízo que causa uma separação?
LIDIANE
Tem uma opção mais em conta? Tem uma idéia melhor?
AGENOR( Sacando o revólver  e colocando o silenciador )
Pois é...eu tive sim.
LIDIANE ( Assustada )
Que palhaçada é essa Agenor? O que sê tá pretendendo fazer?
AGENOR
Ficar viúvo.
LIDIANE
Não sei em qual camelô você comprou isso, mas vou alegar em juízo que era de verdade e você me ameaçou de morte! Inclusive passei a ter síndrome do pânico depois do episódio.  Essa brincadeira vai sair caro. Seu ‘contador’ não vai gostar nenhum pouco.
AGENOR
Pois é minha querida...a arma é de verdade...  É de estimação.  Está comigo a anos.  
LIDIANE ( Sem acreditar )
Sei...você! Um palerma, um moloide, ex-escoteiro, ex-lobinho...tem a anos  uma arma com silenciador... Quer que eu acredite nisso?
AGENOR
Não se preocupe minha querida. Vou fazer uma demonstração. ( Aponta ) mas presta bastante atenção que só dá pra fazer uma vez.
LIDIANE
Não! Não! Vamos conversar! Não estou te reconhecendo... Tá maluco? Essas armas são pra assassino de aluguel, serial killer...
AGENOR
Nunca cobrei nada...
LIDIANE
Como assim? Sê tá me assustando Agenor...
AGENOR
Pois é Lidiane... descobriu meu segredinho... A propósito, lembra daquela estória que eu contei, quando eu era lobinho e um amiguinho meu se afogou num acampamento?
LIDIANE
O que tem?
AGENOR
Fui eu...
LIDIANE
Meu Deus...mas que foi que ele te fez?
AGENOR
Nada, ora essa... Eu apenas segurei a cabeça dele embaixo da água por dez minutos...
LIDIANE
Você está jogando baixo, Agenor. Sabe que minha mãe foi morta por um maluco, um serial killer. Eu tenho trauma... Vou usar isso pra justificar a síndrome do pânico.
AGENOR
Pois é...veja você o que é o destino. Você e sua mãe terem o mesmo fim... Deve ser Karma.  Mas pra você não se achar azarada demais ou vitima de uma coincidência improvável. Quem matou sua mãe... fui eu.
LIDIANE ( Surpresa )
O quê... O serial Killer que matou minha mãe, que chamam de ‘Noturno’...é você?
AGENOR
Exatamente... Mas não se sinta mau por isto. Você não será mais uma pra mim.  Mesmo se eu não fosse assassino eu ia querer te matar.  Lidiane...o contador me mostrou os números.  Esse divórcio ia me levar a falência.
LIDIANE
Agora eu entendo as suas esquisitices... Sumir de uma hora pra outra, lavar o carro de madrugada.  Jogar fora sapatos novinhos e até roupas...
AGENOR
Luminol! A versão líquida do dedo-duro. Tenho ódio de luminol! Qualquer vestígio de sangue ele detecta. Um inferno...
   Ela fica de joelhos ar de súplica.
LIDIANE
Eu imploro Agenor! Pelos bons momentos que tivemos!
AGENOR
Ah é, é?! E quais foram?
LIDIANE ( Quase chorando)
Eu tenho certeza que dentro do seu coração, bem no fundo, ainda existe respeito e carinho por mim.
AGENOR
Mas Lidiane eu sinto carinho por você , eu te respeito.  Eu seria incapaz de dirigir a você palavrões e chingamentos , como muitos ex-maridos fazem. Longe disso... Eu vou só te matar, minha flor.
LIDIANE
Então é pra valer? Você é mesmo esse tal ‘Noturno’...
AGENOR
Sou! Mas veja as coisas pelo lado positivo.  Em minutos você vai saber se existe mesmo vida após a morte.
LIDIANE ( ainda na posição de súplica )
Você não vai me poupar, não é mesmo?
AGENOR
Não posso, Lidiane...  Meu contador jamais iria me perdoar....
LIDIANE ( abandona instantaneamente o ar de súplica e medo. Retorna a mesma postura mandona do início )
Então tá... Mas voltando ao ponto: posso saber o que diabos esse galão de ácido sulfúrico faz no meio da sala?? Tá pretendendo refinar cocaína aqui?
AGENOR ( Estranhando a reação dela )
Na verdade é pra dissolver seu corpo na banheira. Depois eu te derramo num córrego qualquer ou jogo direto no esgoto.
LIDIANE
Sei... E quando alguém perguntar: “ Agenor cadê a Lidiane? O que aconteceu com ela? “ Se vai dizer o que?
AGENOR
Sumiu misteriosamente. Sem deixar vestígio! Deixando apenas um rastro de saudade, por onde meu coração rasteja a procura de uma pista... Ficarei inconsolável durante meses. Colocarei anúncio nos jornais, terei crises depressivas terríveis...
LIDIANE
Sei... E como vai conseguir por a mão no meu seguro de vida,sem ter um corpo pra apresentar?
AGENOR ( Ar de preocupação )
Menina...tô preocupado... Não vai ser fácil cuidar disso sem despertar suspeitas. Tem alguma sugestão?
LIDIANE  
Mas você é um usurpador mesmo... Adora se apropriar das coisas dos outros e até de seus atos...
AGENOR ( Estranhando )
Eu perdi alguma coisa? Eu ainda vou te matar sabia? As pessoas, quando tem tempo, costumam fazer citações religiosas, implorar pela ajuda divina. E você não citou Deus uma única vez.  Ele pode não entender.  Essa sua calma repentina é incomum...
LIDIANE
Deixa de ser palhaço, Agenor!  Não é só você que tem os seus segredinhos... A propósito...Não foi você que matou minha mãe.... Ela foi morta por outro ‘caçador de gente’.
AGENOR
Ah não?! E quem seria?
LIDIANE
Primeiro confessa que está contando vantagem.  Que mentiu...
AGENOR ( Confuso )
Que papo é esse? Mesmo que fosse mentira, como você poderia saber? Você nem sabia desse meu , digamos, lazer clandestino?
LIDIANE
Pois é... e como o senhor tomou como seu, esse feito de outro e já que a imprensa e a polícia pensam a mesma coisa, quem é que sobra?
AGENOR
Ora...o assassino...
LIDIANE
O que nos leva a que conclusão?
AGENOR
Obviamente o assassino teria que ser...você...
LIDIANE
Você gosta mesmo de se apropriar do que é meu. Pretende se apossar do meu estojo de maquiagem, das minhas calcinhas?
AGENOR ( Surpreso )
Não é possível! Não pode ser... Tem um sujeito me imitando, agindo nessa mesma região! Foi ele! Teve até uma vez que matei uma velhinha e ele matou outra igual.  É um maluco!  Só um desequilibrado pra agir dessa maneira.
LIDIANE
Ou alguém querendo se esconder. O ‘Noturno’ está sendo caçado pela polícia.  Esse outro não.  Essa outra...
AGENOR
Então é você ??
LIDIANE
Pois é! Mundo pequeno, não?!Mas não te imito como está dizendo. Não gosto de desovar  ninguém em pedreira abandonada.  Aliás, por falar em velhinha, aquela que encontraram no córrego do sapateiro foi você?
AGENOR
Foi! Eu tava passando de carro e ela me ofereceu uns folhetos de uma ONG que protege Mico-Leão-Dourado , Arara Azul ou coisa assim... Uma simpatia de senhora.
LIDIANE
Mas ela sofreu abuso sexual!
AGENOR
Mentira!!Conversa de jornalista! Até hoje eu não sei de onde tiraram o tal “Noturno”.  Que nome mais doido. ‘Noturno’, que merda é essa? Quando te descobrirem também vão te dar um nome bizarro.  A velha só quebrou o pescoço, joguei ela dentro do córrego.
LIDIANE
Quebrou o pescoço? Numa alturinha daquela?
AGENOR
Eu joguei com força.
LIDIANE
Puxa...tem força assim? Eu você nunca pegou com tanta virilidade.  Devia ter usado essa força pra me pegar de jeito...
AGENOR
A propósito... porque você matou a própria mãe?
LIDIANE
Cigarro!
AGENOR
Mas ela já tinha parado de fumar, Lidiane? E há muito tempo.
LIDIANE
Mentira! Fumava escondido.
AGENOR
Serio?!
LIDIANE
Ela ficou aqui meia horinha sozinha e empesteou as cortinas com cheiro de cigarro. Até na acupuntura eu tinha levado ela.  Eu sempre dizia: mãe, o cigarro mata! O cigarro mata! Ela não acreditou.
AGENOR
Aliás...Porque você gosta de matar?
LIDIANE
Sei lá...Não é por maldade. Nunca foi! È que as pessoas ficam melhor mortas!
AGENOR
Grande verdade! Sempre agoniadas, sempre ansiosas, sempre estressadas e infelizes, mergulham numa paz...numa calma e tranquilidade que só mesmo a morte pode trazer. Não se pode explicar tudo! Pra que serve a Mona lisa?! Pra gente olhar.  Só isso.  As pessoas não entendem a beleza pela beleza. A arte pela arte. Tudo tem que ter uma função e um propósito.
LIDIANE (Espantada)
Minha nossa!! Enfim um derradeiro rasgo de lucidez. Estou espantada...
AGENOR
A verdade é essa, minha cara...eu e você...temos  alma de artistas... Confesso que você cresceu, e muito, no meu conceito.  Sem ironia nenhuma: vai ser uma honra te matar!
LIDIANE
Puxa... precisamos chegar numa situação extrema pra você me fazer um elogio. Se tivesse feito isso mais vezes, talvez não estivéssemos nos divorciando hoje.
AGENOR
Lembra daquele canto no Jardim Botânico? Que você adorava?
LIDIANE
Aquele que a gente viu os Tucanos?
AGENOR
Esse!!
LIDIANE
Que que tem?
AGENOR
Vou desovar teu corpo lá!
LIDIANE (Alegre)
Sério?
AGENOR
Quer dizer...se vai estar em estado líquido por causa do ácido. Vou te derramar nas raízes de um Flamboyant... O que beleza...
LIDIANE
Tô passada... Você ser um assassino me surpreendeu, mais é sempre uma possibilidade, agora...romântico...eu nunca podia imaginar...
AGENOR
Sempre fui! Sempre! Será que dava pra você ficar em cima do plástico preto?
LIDIANE
O luminol?
AGENOR
Pois é... Um inferno.  E depois você sempre reclama quando eu sujo o chão.
LIDIANE
Reclamo com razão. Tá bom aqui?
AGENOR
Ta ótimo.
LIDIANE
Prefere que eu fique de frente ? De costas?
AGENOR
Eu não cometeria a deselegância de atirar numa ‘colega’ pelas costas.
LIDIANE
Se nunca usa faca ? ( Lembrando) Ah claro! O Luminol.
AGENOR
Pois é. Quer dizer alguma coisa? Suas últimas palavras, confessar algo inconfessável ? Um pecado que só se confessa no leito de morte... A hora é agora.
LIDIANE
Nenhum! Eu sou uma mulher sem pecado!
AGENOR
Até na bíblia, o pecado e a mulher estão associados.
LIDIANE
Não comprometa a tardia admiração que adquiri por você com uma crise de machismo, por favor.
AGENOR
Nem um amante? Nesses anos todos?
LIDIANE
Não, nunca. E não foi por fidelidade, foi por falta de disposição. Homem  é muito cansativo.  Matar eles é bem mais divertido.  Quando queria extravasar as tensões, eu saia e matava alguém. Aqueles drogados que acharam perto do córrego fui eu.  Nada a ver com guerra de quadrilha como falaram.
AGENOR
Mas foram três  duma vez?! Como conseguiu?
LILIANE
Eu tava no morro, bem longe com um rifle, escondida numa moita. Uso um rifle de precisão, normalmente atiro de  longe pra poder fugir devagar sem despertar suspeitas.  Os caras tavam  completamente chapados.   Eu derrubei o primeiro, o cara ao lado o cutucou  pra ver o que tinha acontecido. Derrubei ele também, o terceiro tentou correr mas tava tão chapado que a cada dois passos ele tropeçava nas pernas. Daí acertei ele.  Foi tão engraçado, parecia comédia da sessão da tarde. Muito legal. ( Ri )
AGENOR
O barato é isso, a coisa sempre tem um lado cômico. Então tá... ( Aponta ) Não vai implorar pela vida ou algo assim?
LIDIANE
Eu sou uma profissional e espero que você também seja.
AGENOR
Claro! Não quis ofendê-la.  É que nessas horas as pessoas fazem cada coisa. Eu sempre me divirto. Teve uma mulher religiosissima. Ficou invocando uma santa...como era mesmo o nome da santa...
LIDIANE
Santa Edwiges ?
AGENOR
Não.
LIDIANE
Santa Lurdes?
AGENOR
Não. Tem uma igreja dela aqui perto.
LIDIANE
Santa Rita!
AGENOR
Isso! Ela falava com tanto fervor.  E não era desespero,era devoção.  Essa mulher clamou, clamou, clamou... Se  acredita que a Santa Rita não veio?
LIDIANE
Acredito.
AGENOR
Daí eu matei ela. Ta pronta?
LIDIANE ( Levando as mãos a cabeça como quem lembra de algo )
Nossa!
AGENOR
Que foi?
LIDIANE
Como é que fui esquecer isso?!
AGENOR
O quê?
LIDIANE
Eu matei sua mãe.
AGENOR (Rindo)
Por favor... A minha mãe morreu num acidente de carro.  Bateu num caminhão.
LIDIANE
Eu fiz um furinho no óleo de freio do carro.
AGENOR (Espantado)
O carro tava cheio. Ela e mais quatro senhoras.  Iam no bingo.  Morreram todas!
LIDIANE ( dando de ombros )
Tive sorte.
AGENOR
Foi por alguma razão especial ou pelo prazer estético da coisa?
LIDIANE
Foi por nós dois! Ela queria que a gente passasse o natal e o Réveillon na casa da praia.  A família toda! Até aquele seu tio esquisito, do cachecol.
AGENOR (Cara de horror)
Vixi!!
LIDIANE
Ninguém merece....
AGENOR
É...sê teve seus motivos.  Mas enfim... Como diria Vinícius de Moraes: ‘ Que seja infinito enquanto dure.’ Sê quer o tiro aonde?
LIDIANE
Na sua testa.
AGENOR (Rindo)
Boa...gostei. Mais pro centro do plástico, por favor.
LIDIANE (Ajeitando o plástico para um lado, depois para outro. Vê que o plástico está curto)
O metro quadrado disso aqui não custa nem dois reais.  Não podia ter comprado um plástico maior?
AGENOR
Eu chutei um tamanho e errei.  Pronta?
LIDIANE
Acho que sim. Quer que eu chame a Santa Rita? Quem sabe no meu caso ela vem.
AGENOR
Dificilmente.  Não seria nada ético da parte dela. Sabe que você cresceu muito no meu conceito.  Podíamos até trabalhar juntos se eu não fosse te matar.
LIDIANE
Não daríamos certo juntos. Você não me obedece! Por exemplo: eu fiz um doce de leite, daqueles de comer com colher e deixei na geladeira pro jantar...
AGENOR
O que tem? E daí?
LIDIANE
Tenho certeza que você foi lá, abocanhou um pedaço, enfiou a colher suja novamente pra tirar outro pedaço e depois aplainou pra disfarçar.  E claro, daqui a uma hora já vai ter azedado.
AGENOR
Nem abri a geladeira hoje, fique você sabendo.
LIDIANE
Duvido!
AGENOR
Tô de regime! Não como doce a dias.
LIDIANE
Jura por Deus?
AGENOR
Claro que juro!
   Leva as mãos ao pescoço.  Deixa cair a arma, ar de quem foi envenenado.
AGENOR (Caindo no chão)
Maldita!
LIDIANE
Tá vendo? Homem é assim! Morre mas não obedece! ( Ela pega a arma) Bonito esse silenciador, o meu já tá velhinho, tá fazendo um som metálico. Não é mais aquele som de papelão  de quando era novo. É Russo?
AGENOR (Sempre no chão,voz esganiçada)
Israelense...
LIDIANE
Vem pra cima do plástico Agenor.  E não adianta golfar nem vomitar, o veneno já tá na corrente sanguínea...Se vai morrer querido.  Então não faz sujeira..
    Ele rola para cima do plástico.
AGENOR
Eu não quero morrer...
LIDIANE
Pensa pelo lado positivo.  Daqui a segundos você vai saber se existe vida após a morte....
AGENOR
Você vai me imitar até nisso?
LIDIANE
Na verdade vai ser mais que isso. Vou usar o ácido, dizer que você sumiu,  ficarei inconsolável durante meses.  Colocarei anúncio nos jornais, terei crises depressivas terríveis...
AGENOR
Lidiane...deve ter um antídoto...
LIDIANE
Não tem Agenor.  E mesmo se tivesse eu não ia te dar... Mas me diz uma coisa... Sê tinha algum plano pra receber o meu seguro de vida?
AGENOR
Ia ...ai...ia passar um tempo de ‘luto’...depois entrar na justiça...pra conseguir o dinheiro...
LIDIANE
Nossa!  Mas deve demorar anos.
AGENOR
Não tem...outro jeito...
LIDIANE
Puxa vida... tava querendo trocar de carro. Você acabou com o nosso com seus passeios a pedreiras abandonadas. ( Lembrando ) Outra coisa? Como é que usa o ácido? Quanto você coloca de água?
AGENOR
É puro...
LIDIANE
O vapor que solta deve acabar com o cabelo...
AGENOR
Tem ...toca ,mascara e luva no banheiro...
LIDIANE
Graças a Deus! Nunca usei ácido.  É serviço de homem.  Que gosto tem o veneno?
AGENOR
Doce de leite....
LIDIANE
Agenor.
AGENOR
Que...que é?
LIDIANE
Não fica chateado comigo...mas eu não vou te derramar no Jardim Botânico, não.  Lá onde tinha os tucanos...
AGENOR
É...eu já imaginava...
LIDIANE
Outra coisa,gostei tanto do seu silenciador? Onde sê compra essas coisas? Eu tenho um fornecedor só, que me trás as coisas do Paraguai.
AGENOR
Numa travessa da...Santa Efigênio.  Na rua dos Timbiras... Tem um cara na esquina ...Seu Sergio que vende milho verde... Diz pra  ele que o Rubão te mandou... É a senha.  Daí ele fala da mercadoria. Vende de tudo... Ele me conhece como Professor Marcos...Pode falar que me conhece...Só não diz que me matou pra ele não ficar desconfiado...
LIDIANE
Claro, né Agenor! Onde você compra munição?
AGENOR
...gozado...
LIDIANE
O quê?
AGENOR
Quando é a gente que tá morrendo não parece divertido...
LIDIANE
Sério?
AGENOR
Sério.  Vai ver as pessoas que nós matamos pensaram a mesma coisa...
LIDIANE
Não generaliza Agenor.  Não generaliza.
AGENOR
Acho que... que no meu caso...Santa Rita tem o dobro de razão pra não aparecer....
LIDIANE
Seria uma patifaria da parte dela aparecer. E depois eu teria que dar um tiro nela... Imagine... Sou católica praticante. Não iria pegar nada bem, acho melhor ela ficar fora disso.
AGENOR
Posso. ..te pedir uma ..coisa?
LIDIANE
O quê?
AGENOR
Um antídoto!
LIDIANE
Não tem Agenor! E mesmo que tivesse eu não ia te dar. Quer mais um pouquinho de doce de leite?
AGENOR
Acho melhor não... Não me caiu muito bem... O veneno demora muito pra fazer  efeito?
LIDIANE
Não. É rapidinho. Mas para que não diga que sou insensível, como fez a vida inteira, eu vou ficar do seu ladinho até você morrer.  Se eu ver que tá demorando muito eu te dou um tiro. Tá combinado assim? Eu até podia ler alguma coisa inspiradora pra você, mas acho que não vai dar tempo.
AGENOR
Puxa...se tá...tão sensível hoje...tão  meiga...
LIDIANE
Eu não sou o monstro de insensibilidade que você imagina.  Eu tenho sentimentos.  Eu gostava muito da minha mãe.  Eu não gostava era do cigarro e lutei tanto pra ela parar. Teve uma hora que eu desisti... Até da sua mãe eu gostava um pouco, as vezes... Agenor...Agenor...
   Agenor permanece imóvel com os olhos abertos.  Lidiane acha que ele morreu e lentamente faz o gesto de fechar os olhos do morto.  Assim que ela afasta a mão ele dá um grito.
AGENOR
Lidiane!
LIDIANE ( Tomando um susto )
Meu Deus! Pensei que tava morto.  Quase me mata do coração!
AGENOR
Deve ser melhor que morrer envenenado...Porque preparou o doce com..veneno? Se...se nem sabia que eu vinha aqui...hoje...
LIDIANE
Eu sabia que viria um dia. Daí eu venho preparando doce com veneno a quase um mês. Mas não pensa que foi fácil. Outro dia tive que sair e deixar a dona Mirtes, a diarista, sozinha aqui em casa. Falei pra ela: “ Dona Mirtes eu deixei um pudim de laranja na geladeira, mas por favor, não toque nele.” Se ofendeu! “ Imagine se eu iria mexer,dona Lidiane! Deus me livre.” Quando eu voltei encontrei ela  morta na lavanderia. Desovei lá no lago da pedreira que você tanto gosta. Acabei com as minhas unhas e arrebentei as minhas costas. Deus me livre de ter uma diarista gorda de novo.  Maior dificuldade pra desovar o corpo depois...
AGENOR
Coitada da dona ...Mirtes... Trabalhava tão direitinho...
LIDIANE
Pois é. Vou penar pra encontrar outra igual. Se não conhece alguém que cobre baratinho e tenha no máximo cinquenta quilos?
AGENOR
Conheço ...uma sim.  Bem magrinha...cobra razoável...  Mas fuma.  No seu caso...é melhor evitar...
LIDIANE
Também acho.
AGENOR
Lidiane...Lidiane
LIDIANE
O que  foi?
AGENOR
Eu tô vendo...eu tô vendo...
LIDIANE
Santa Rita? ( Ela engatilha a arma e aponta para todos os lados) Onde? Onde? ( Aponta para todos os lados a caça da ‘Santa Rita’ )
AGENOR
Eu to vendo...tudo preto...
LIDIANE ( Baixando a arma )
É isso? Que susto. É normal amor. É o veneno. Fica quietinho que já-já sê morre, coração.
AGENOR
Eu devia ter atirado em você logo ...que entrou...
LIDIANE
Não ia adiantar nada, iria morrer do mesmo jeito. Nós dois iríamos. Nossa! Ia ser igual ao final de Romeu e Julieta. Olha que lindo! Ia ser tão romântico.  Sê tá ouvindo alguma voz, vendo um túnel com uma luz no fundo? Dizem que é isso que acontece nessas horas. É um anjo que vem nos receber.
AGENOR
Que vai ser de ...mim... se o anjo vier... e eu assim...desarmado... Se esse papo de céu e inferno...for ...pra valer...tô ferrado!
LIDIANE
Não é bem assim Agenor. Tudo bem, nós matamos algumas pessoas, mas nem por isso somos  ruins.  Somos pessoas más.  
AGENOR ( Segura no braço dela, ar de quem está nas últimas )
Lidiane!
LIDIANE
Que foi?
AGENOR
Não ...não joga o ácido duma vez...senão espirra...
LIDIANE
Pode deixar , vou colocar devagarzinho... Será que vai deixar cheiro nas cortinas?
AGENOR ( Nas últimas )
Lidiane...
LIDIANE
O que foi? Nossa... tá demorando muito Agenor... (  Ela levanta, aponta a arma ) Vai levar um tempão pra te dissolver no ácido e limpar a casa. E ainda vou ter que lavar o cabelo... Outra hora a gente conversa com mais tempo, agora vou ter que te matar...
AGENOR
Não... precisa...eu já to...indo...posso te ...pedir...uma última coisa?
   Ela agacha. Coloca a cabeça dele no colo dela, ar terno.
LIDIANE
O que querido?
AGENOR
Me derrama...no jardim...botânico...nos tucanos... queria ter um fim...bonito....
LIDIANE
Não vai dar amor...  Não estou podendo levantar peso.  A dona Mirtes acabou com as minhas costas! Fiquei com tanta raiva dela! Gorda comilona! Mas olha...sê vai ter um fim bonito querido..., assim que te dissolver , vou abrir  o ralo da banheira...  Se vai cair no esgoto,passar pelas galerias, desaguar no  pinheiros e seguir rio abaixo, passando pela marginal, pela ponte estaiada , pelos prédios da Globo... e depois ... se dissolver ...lentamente...no meio da bosta...amor....


                                                   FIM



ATÉ QUE A MORTE OS SEPARE


PERSONAGENS:


EUCLIDES
DULCINÉIA


      Em cena apenas Euclides.  Ar ansioso, aflito caça algo nos bolsos.
EUCLIDES
O que eu não daria pra fumar um cigarro! Vinte anos sem dar um trago. Vinte anos perdidos meu Deus... Vinte anos me controlando pra não morrer de câncer de pulmão e morro de enfarte! E agora? Quem é que vai me compensar por todos os cigarros que eu não fumei? Por todas as tragadas que eu não dei! Até brócolis eu comi! Suco de beterraba! Baixa a pressão diziam... Morri com a pressão de um menino! Sacanagem... ‘O cigarro diminui o tempo de vida!’ Faz alguma diferença morrer meio dia ou meio dia e meia?  To eu agora já morto, morrendo de vontade de fumar.  Que fissura... To nem aí... Se São Pedro aparecer em pessoa vou filar um cigarro dele. Como será que foi o meu enterro... Espero que tenham colocado a bandeira da Souza Cruz no meu caixão. E uma frase dizendo: “Me desculpem... Vocês tinham razão!” Vai ver se eu me concentrar o cigarro aparece.  Deve ser assim que as coisas acontecem por aqui.  Como nos filmes.  Quer dizer... nos filmes quando agente morre aparece alguém, uma coisa solene.  Mas comigo tá tão parado... Tudo bem... não fui grande coisa na vida, mas nem um “Oi” ? Vou me concentrar!   (Se concentra) Um cigarro... um cigarro...um cigarro pelo amor de Deus... Faz assim... me manda um maço...    Entra Dulcinéia.  Ela se espanta ao ver Euclides.  
EUCLIDES
Um cigarrinho... um cigarrinho...uma guimba...uma bituca...
DULCINÉIA
Euclides!
   Euclides toma um susto ao vê-la.
DULCINÉIA
É você mesmo? Euclides.  Meu ex-marido... como é possível meu Deus? Você também morreu?
EUCLIDES
Eu morri sim e pelo visto você também... Que tá fazendo aqui?  Eu tava me concentrando... aí você apareceu... Será que é isso?! Trouxe o cigarro?
DULCINÉIA
Mas que cigarro? Ficou maluco? Claro que não!
EUCLIDES
Como não? Eu penso em cigarro e aparece minha ex-mulher que eu nem sabia que tinha morrido? Cigarro dá câncer... será que eles confundiram?
DULCINÉIA
Meu Deus... a quanto tempo a gente não se vê? Cinco anos?
EUCLIDES
Acho que mais... Sê tem certeza que não trouxe o cigarro? Vai ver colocaram no seu bolso.
DULCINÉIA
Não tem cigarro nenhum, idiota! Você tinha voltado a fumar?
EUCLIDES
Na verdade não. To a mais de vinte anos sem fumar um cigarro. E agora que eu morri não consigo pensar em outra coisa. Deu também vontade de comer um torresminho a pururuca, mas depois passou... Sê tem certeza que não tem nada no bolso. Eu me concentrei e você apareceu, só pode ser pra trazer o cigarro.
DULCINÉIA
Decididamente a morte não lhe fez bem. Você continua o mesmo de sempre e com o agravante de voltar a fumar. É essa a única pergunta que tem pra me fazer depois de cinco anos? Se eu trouxe o cigarro?
EUCLIDES
Se perguntar como você está, você responde o que? “Morta”!
DULCINÉIA
Alguém apareceu?
EUCLIDES
Você!
DULCINÉIA
Do que você morreu?
EUCLIDES
Coração.
DULCINÉIA
Eu sabia! Eu sabia!
EUCLIDES
Não! Isso não! Tai uma coisa pra não se fazer depois de cinco anos.
DULCINÉIA
Agora você acredita que gordura e sal demais fazem mal?
EUCLIDES
Tá, tá, tá bom... Você estava certa! Tá feliz? Tá feliz? E você? Qual dos teus ex-maridos te matou? Ou teria sido o atual? Eu tenho um álibi... eu tava aqui.
DULCINÉIA
Foi... foi num acidente de avião.
EUCLIDES (Surpreso)
Acidente de avião?! Você consegue se pavonear até na morte? Impressionante! Era mesmo esperar demais que tivesse sido atropelada por um ônibus ou engasgado com um bagaço de laranja.
DULCINÉIA
Pois é... Uns são vítimas da fatalidade do destino, outros de uma dieta inadequada...
EUCLIDES
Nem por isso está menos morta...  Como eu me arrependo de ter parado de fumar... O que eu não daria pra dar uma fumada agora... Daquelas de acender um cigarro na bunda de outro e continuar fumando... Aí que delícia...
DULCINÉIA
Que injustiça! Eu devia ter vivido, no mínimo, uns quinze anos a mais que você.  Aliás, o que eu estou fazendo aqui ao seu lado? Tem alguma coisa muito errada! Eu sempre pensei que assim que as pessoas morressem Cristo viesse receber a gente.
EUCLIDES (Surpreso)
Quem?
DULCINÉIA
Cristo! A gente morreu, não morreu?
EUCLIDES
E você lá fez alguma coisa relevante na vida pra merecer uma honraria dessas? Se ele te mandasse um e-mail já seria demais! Já seria uma honra indevida.
DULCINÉIA
E nem fiz nada tão terrível a ponto de ser recebida pelo ex-marido.
EUCLIDES
Alto lá! Eu não vim te recepcionar não senhora! Se tá pensando que eu sou o que? Porteiro de cemitério? Eu sô pedi um cigarro.
DULCINÉIA
Eu li num livro espírita que os parentes que morrem primeiro vêm recepcionar os recém-chegados.
EUCLIDES
E eu lá sou seu parente por acaso? Ex-mulher é parente? Ex-mulher é a parte contrária na vara de família.  A litigante!
DULCINÉIA
E o que é que o senhor veio fazer aqui?
EUCLIDES
Eu morri lembra? E primeiro que você. Aliás, se surgir algum anjo ele vai cuidar do meu caso pra depois cuidar  do seu. É por ordem de chegada.
DULCINÉIA
Tá dando ordem aqui também? Tá organizando a fila? Imaginou se o anjo for enumerar os seus pecados um a um? Vou passar o dia todo esperando.
EUCLIDES
Vai ao shopping querida. Aproveita e na volta me trás um maço de cigarros.
DULCINÉIA (Andando de um lado para outro)
Tem alguma coisa errada aqui. Oh... alguém... tem alguém me ouvindo? (Olha pra cima, fala para o alto) Alguém se enganou. Esse aí não é meu parente não. É meu ex-marido. E em vida ele nunca foi boa coisa...
EUCLIDES
Eu era um ser humano melhor antes de casar com você... sabe como é...com a convivência...   
DULCINÉIA
Eu não aceito ficar no mesmo lugar que esse sujeito!Tem alguma coisa errada... A morte é um momento solene, um momento onde as verdades maiores se manifestam... Eu morro e dou de cara com você? Não é possível!
EUCLIDES
É... pra quem tava esperando Jesus Cristo, reconheço que é pouco... Quanto às verdades maiores, ficou demonstrado que existe algo além da morte.  Pelo menos isso.
DULCINÉIA
Pois é... o senhor não era materialista ferrenho. “Morreu acabou”.
EUCLIDES
Eu me enganei duplamente.  Devia ter acreditado em Deus e continuado a fumar.
DULCINÉIA
Considerando nossa atual situação, eu escolheria melhor as palavras.
EUCLIDES
Por isso que inventou essa estória de que ‘leu num livro espírita’? Que eu saiba você só comprava o livro depois de ter visto o filme.
DULCINÉIA
Você tá me chamando de superficial?
EUCLIDES
Não necessariamente.  Em alguns casos o filme era bom.
DULCINÉIA
Muita coisa aconteceu desde que a gente se separou. Foram cinco anos sem te ver. Eu melhorei muito como ser humano nesse período. Inclusive, me tornei Kardecista.
EUCLIDES
Sei... e quem te garante que o Deus real, esse que existe, não seja evangélico? Se for esse papo de kardecista vai queimar o seu filme. Um ex-ateu, pelo menos, não estava comprometido com nada.
DULCINÉIA
Os oportunistas nunca estão comprometidos com nada! Além dos próprios interesses. Acho que eu sei o que estou fazendo aqui.
EUCLIDES
O quê?
DULCINÉIA
Acho que o Criador me trouxe pra que eu pudesse te perdoar e você seguir pelos caminhos dos espíritos de pouca luz...
     Euclides tem uma crise de riso.
EUCLIDES
Vai ver Cristo estava ocupado e te mandaram no lugar dele.  
DULCINÉIA
Vai brincando... Que outro motivo seria?
EUCLIDES
Acho que o Criador me trouxe pra que eu pudesse te perdoar e você seguir pelos caminhos dos espíritos de pouca luz...    
   DULCINÉIA tem uma crise de riso.
DULCINÉIA
Faz-me rir.
EUCLIDES
Agora eu entendo bem porque a gente se separou.
DULCINÉIA
Isso é moleza. O duro é entender porque a gente se casou. Mas vamos tentar descobrir o que está acontecendo aqui. Vamos recapitular, deve ter uma lógica por trás disso. Qual foi a última pessoa com quem você falou em vida?
EUCLIDES
A enfermeira. Ela apertou minha mão e disse: “Não se preocupe seu Euclides. Vai dar tudo certo.” Meia hora depois eu tava morto.
DULCINÉIA
É sempre assim... Eu ouvi algo parecido.
EUCLIDES
Sério?! E o que foi que o piloto disse antes do avião cair?
DULCINÉIA (Embaraçada com a pergunta)
Como assim?
EUCLIDES
Você não morreu num acidente de avião?
DULCINÉIA
Ora... não vamos perder o foco! Voltemos ao ponto. O que estamos fazendo os dois aqui juntos? Depois de mortos?! Coisa que a gente nem fazia quando vivos?
EUCLIDES
Por favor, não se altere... Mas eu ainda acho que você veio me trazer o cigarro.  Dá uma olhadinha nos bolsos...
DULCINÉIA
Vá à merda Euclides!!
EUCLIDES
Tá vendo como você é? Custa olhar?
    Entra voz do Diabo.  Uma voz Grave, como seria de se esperar, mas num tom mais ‘superior’ do que ameaçador.  Como um Juiz severo diante de pequenos marginais.  
DIABO
Dona Dulcinéia, Senhor Euclides.
DULCINÉIA (Ficando de joelhos assustada)
É ele! Sim, senhor! (Puxa Euclides para ele se ajoelhar também) Estamos aqui, ô senhor! Humildemente aguardando suas palavras, agora que estamos às portas do seu reino... (Faz uma reverência, imitada com atraso por Euclides)
DIABO
A que ‘senhor’ está se referindo?
DULCINÉIA (Insegura)
Cristo?
DIABO
Não.
DULCINÉIA
São Pedro?
DIABO
Não.
DULCINÉIA
Santo Agostinho? São Marcos? Santo Antonio? São Lucas? Arcanjo Gabriel?
DIABO
Nenhum deles! Eu pediria que ficassem em pé. Aqui as Orações e quaisquer gestos de louvor são punidos severamente.
      Os dois se levantam e se abraçam assustados, compreendendo enfim que estão no inferno e falam com o diabo.
DULCINÉIA (Para Euclides)
Acho que a gente não ‘passou de ano’, Euclides.
EUCLIDES
Também acho... Mas será que ainda temos direito a recuperação ou fomos reprovados direto?
DIABO
Isso o tempo dirá, senhor Euclides. Creio que já descobriram onde estão e com quem estão falando?
     Os dois balançam a cabeça que sim assustados. Permanecem abraçados.
DIABO
Ótimo. Não dá para dizer: ‘sejam bem-vindos’, pois o fato de não o serem os trouxe até aqui. Mas garanto a vocês que a hospedagem é justa e merecida.
DULCINÉIA (Se soltando de Euclides)
Isso é um grande equívoco! Eu não deveria estar aqui!
DIABO
Todos dizem isso. Assim que se recuperar do susto, o senhor Euclides dirá o mesmo.
DULCINÉIA
Mas no meu caso é pra valer! Houve um grande engano. Os dois  
DIABO
Aqui não se comete enganos, senhora.
DULCINÉIA
Eu tenho certeza disso! Mas veja meu senhor... entendo o que vai dizer... (Aflita caçando as palavras certas.)...  Dirá que o sistema aqui é a prova de erros e jamais se engana. Ok! Concordo com o senhor. (Continua a aflição com as palavras que não vem) E imagino que jamais iria acreditar no contrário. (Finalmente parece achar o discurso certo) Mas não estou falando de um erro sistêmico gerado de dentro pra fora. Não! Me refiro a variáveis estocásticas surgidas de fora pra dentro. Uma somatória de erros improváveis que sozinhos não produziriam nada, mas que alinhados produziram uma singularidade. Compreende?
DIABO
Perfeitamente. É a chamada teoria do Caos.
DULCINÉIA
Ótimo! Estamos de acordo então. É dessa singularidade que estou falando e não de um erro sistêmico nesse... nesse estabelecimento que o senhor dirigi tão brilhantemente. Com tanta dedicação...
DIABO
Sim, senhora Dulcinéia.  Creio que é nesse ponto da conversa que irá expor o argumento definitivo.  Que me convencerá de que a senhora é essa singularidade. Para em seguida deixar meus domínios e subir até as instâncias superiores. Acredite... vai ser difícil.
DULCINÉIA
Pelo contrário! Essa é a parte mais fácil.
DIABO
Sei... E que prova, que argumento seria esse?   
DULCINÉIA (Exultante. Tendo a causa como ganha)
ELE! (Aponta para Euclides)
DIABO
O senhor Euclides? É ele o seu argumento incontestável?
DULCINÉIA
Exatamente! (Euclides olha feio pra ela) A simples comparação entre as minhas ações terrenas e as dele já serão prova suficiente. É como colocar o feio diante do belo, um exclui o outro.
EUCLIDES (Para Dulcinéia, irônico)
Obrigado Dulcinéia.  É sempre bom contar com você nos momentos difíceis...  
DULCINÉIA (Para Euclides)
Nada pessoal... (Para o Diabo) A minha conduta moral durante a vida e meus padrões éticos sempre foram muito superiores aos do Euclides, daí eu não posso, depois da vida, ter a mesma sorte que ele. Um simples levantamento, mesmo superficial já vai deixar isso claro como água. O senhor poderia me fazer essa gentileza? Mesmo porque a presença de alguém superior num ambiente inferior pode causar um desequilíbrio no lugar. E desencadear novas variáveis estocásticas.
DIABO
Perfeitamente. A comparação pecado a pecado já está sendo feita senhora...
DULCINÉIA (Para Euclides, conciliadora)
Não leve pro pessoal Euclides. Esse lugar é pra pessoas como você. Pra que purguem seus pecados, seus erros e retomem o caminho da luz, da virtude. (Aperta as mãos dele afetuosamente) Eu tenho certeza que um dia Euclides..., um dia você vai ascender como ser humano e se reencontrar comigo nos planos superiores. Mas olha... lá de cima eu vou estar torcendo por você....
DIABO
Pronto! Foi tudo medido e pesado senhora Dulcinéia.
DULCINÉIA (Feliz)
Que bom! Por onde é a saída?
DIABO
Foi tudo medido e pesado.  Constatou-se que os dois são pecadores na mesma medida, cada um a seu modo. Daí estarem onde estão.
DULCINÉIA (Chocada)
O QUÊ?
DIABO
Isso que ouviu e creio que ouviu bem. A senhora não é uma meia grama sequer, melhor que o senhor Euclides.
DULCINÉIA  
Pois eu exijo uma recontagem! Que métrica é essa que me iguala a um... um sacripanta! Adúltero! Que me chifrou com mais de mil mulheres diferentes?
DIABO
Não foram tantas assim. A única que poderia ter um peso maior, em termos de pecado cometido, foi sua irmã.
DULCINÉIA (Horrorizada)
Você teve um caso com a Bete ?
EUCLIDES
Não foi minha culpa! A culpa foi do ex-marido dela, o Olavo.  Depois da separação eu o encontrei por acaso.  Meteu o pau nela. Que era safada, que não valia nada, que só prestava pra uma coisa... E foi justamente ele ter falado nessa ‘coisa’ que me instigou a ter um caso com ela. Fui induzido ao erro.
DULCINÉIA
E o canalha ainda bota a culpa num outro canalha igual a ele?! E essa ‘coisa’, seria o que?
EUCLIDES
Prefiro não entrar em detalhes...
DULCINÉIA (Para o Diabo, chorosa)
Isso não é justo! Eu não posso ter o mesmo destino que um canalha como esse!
DIABO
É mesmo? O apelido ‘Minha Cadelinha’ lhe é familiar?
DULCINÉIA (Abandona o ar choroso e se encolhe toda. Ar matreiro de quem foi pego num delito)
E-eu?! Num sei... não...claro que não.
DIABO
Acha mesmo que pode mentir pra mim? Cuidado com o que diz dona Dulcinéia. Aqui cada palavra tem um preço. E é cobrada a vista. Conhece o apelido ‘minha cadelinha’?
DULCINÉIA (Envergonhada, mão no rosto, fala baixinho)
Sim...
DIABO
Mais alto.
DULCINÉIA
Sim.
DIABO
Mais alto!
DULCINÉIA
Sim!
DIABO
Senhor Euclides...
Euclides (Se antecipando a pergunta)
Nunca ouvi falar nisso! Nem sei do que estão falando.
DIABO
Não é essa a minha pergunta.  Senhor Euclides, o senhor se lembra de um certo Luiz Gustavo Rivera?
EUCLIDES
Claro que eu lembro. O Déco! Nossa... Amigo da vida toda. Desde moleque.  Empinamos muita pipa e soltamos muito balão juntos... Mas... porque ,assim...tá perguntando? Que que tem a ver... (Olha para Dulcinéia e entende enfim. Para ela, furioso) Desgraçada! Isso não é cadelinha! É cachorra mesmo!
    Parte pra cima dela. Ela foge.
DULCINÉIA
Que moral tem você pra falar de mim? Eu tava me sentindo sozinha, carente...
EUCLIDES
Comprasse um gato! ‘Tava sozinha, carente... ’ Quando Mulher diz: ‘To carente’. Tradução: ‘Vou dar pro primeiro que aparecer!’ Aliás..., falando em mulher ordinária (Lascivo, querendo vingança)... sabe como é que eu apelidei a sua irmã? ‘Boca nervosa!’ Essa era a ‘coisa’ que não quis te falar.  Menina... coisa de louco. Ela tinha uma contorcionista russa no lugar da língua. E áspera... só de lembrar arrepia.  (Ela ameaça bater nele, ele foge) No resto era o básico. E depois ainda tinha que agüentar as lamurias dela toda vez na hora de sair do motel. “Eu não devia ter feito isso.” “A Dulcinéia não merece.”“ Jurei pra mim mesma que não viria mais... ”“ Se mamãe fica sabendo ela morre...” Chata! Deve ser de família isso. Pena que você não herdou a ‘língua bailarina’.
DULCINÉIA
Pústula! Cafajeste! (Dá um tapa no braço dele. Ele se esquiva)
EUCLIDES
A sua mãe inclusive...
DULCINÉIA (Interrompendo Assustada)
Não... com a minha mãe não.... Minha mãe não!
EUCLIDES
Calma! Não quis dizer isso. Eu ia dizer que sua mãe ficou sabendo. Deu um rolo, veio tirar satisfações, me chamou de canalha e tudo.
DULCINÉIA
Você é um canalha! Seu canalha! E eu que ainda me sentia culpada toda vez que saia com o Déco...  
EUCLIDES
Claro! Devia infernizar ele também na saída do motel: “ Eu não devia ter feito isso.” “ O Euclides  não merece.” “ Jurei pra mim mesma que não viria mais...” “ Se o Euclides  fica sabendo ele morre...”. Mulher sem vergonha é tudo igual! O arrependimento é sempre na saída do motel. Nunca na entrada.
DULCINÉIA
Eu tava solitária!
EUCLIDES
Comprasse um gato! No máximo. Com mulher safada, até um cachorro já é perigoso.
DULCINÉIA (Horrorizada)
Seu degenerado, seu energúmeno!
DIABO
Vejo que já se entenderam. Podemos então dar procedimento aos trabalhos.
DULCINÉIA
Não, não, não! Por favor! As coisas não podem ser feitas assim, tem que me dar chance de dizer ao menos uma palavra em minha defesa!
DIABO
A senhora já fez isso. E com muitas palavras inclusive. Vocês não estão aqui para serem julgados, vocês estão aqui por serem culpados.
EUCLIDES
Mas meu senhor..., dentro da liturgia local, não teria alguma coisa que nos favorecesse de algum modo e abrandasse nossa pena? Tudo bem... não somos grande coisa, mas também não somos tão ruins assim.
DIABO
Sim tem.
DULCINÉIA
E que eu teria que fazer pra... abrandar a minha situação?
DIABO
Vocês já fizeram.   
DULCINÉIA/EUCLIDES
Já?
DIABO
Sim. Todos recém-chegados tem essa última oportunidade de provar serem possuidores de alguma virtude superior, de valores éticos internos. E com isso abrandar sua pena. De início os dois se saíram bem. Ao saberem com quem estavam falando, a primeira reação que tiveram foi se abraçarem. Buscaram refúgio um no outro. Na maioria dos casos as pessoas buscam refúgio ‘atrás’ do outro. Um usa o outro como escudo, depois ficam trocando de posição, numa espécie de dança das cadeiras sem cadeiras. Mas depois apenas um de vocês continuou, ainda que timidamente, pelo caminho da virtude, enquanto o outro se calou. Apenas esse tem alguma esperança, muito pouca é verdade, porém tem que ser considerada.
EUCLIDES (Revoltado, achando que ele que se deu mal)
Mas isso não é justo! Confesso que fiquei meio assustado com a situação, mas depois essa daí caiu numa verborragia que não me deu chance de uma só palavra! Por isso ela é mais ‘virtuosa’ do que eu?
DIABO
Não é dela que estou falando e sim do senhor. O senhor é que tem essa réstia de virtude.
DULCINÉIA (Revoltada)
Como é que é? Além de tudo ainda tenho que ouvir um absurdo desses? Essa criatura a quem o senhor chama de ‘virtuosa’, mal arriscou algumas palavras! Ficou apalermado se borrando todo! Enquanto eu tomava a frente da situação, fazendo jus a tradicional covardia masculina! Aliás, o grande questionamento que ele fez hoje foi: “você trouxe o cigarro?” Mas já entendi tudo. O bom e velho machismo ataca novamente! Pior! O Pavoroso corporativismo masculino! Eu queria só cinco minutos na internet e as mulheres do mundo inteiro saberiam disso! Deviam começar uma greve. Se recusar a morrer enquanto uma injustiça dessas não fosse corrigida!
DIABO
A senhora é hábil com as palavras, dona Dulcinéia. Pena que essa habilidade pese contra a senhora.
DULCINÉIA
Como assim?
DIABO
Do abraço inicial que os redimia a senhora foi a primeira a se livrar. E tentou usar como prova de inocência, a necessária culpa do senhor Euclides. Seu discurso é sempre na primeira pessoa, “O que ‘eu’ teria que fazer pra abrandar a ‘minha’ situação?” Enquanto o discurso, sempre curto e modesto do senhor Euclides era “Não somos grande coisa, mas também não somos tão ruins assim.” Ele é o único a usar a pessoa verbal ‘nós’.  Ao contrário da senhora, ele ainda continua abraçado.
DULCINÉIA
Eu às vezes... as vezes eu me excedo um pouquinho...não meço bem as palavras...
DIABO
Mas é justamente aí que as palavras saem no tamanho real.  Sem serem aumentadas ou diminuídas.  Vocês são dois e dois são os lugares para onde podem ir.  Um deles preparem-se, é ruim. Mas o outro, acreditem, é muito pior.
       Euclides e Dulcinéia se encaram por um instante e se abraçam novamente.
DULCINÉIA
Eu to com medo Euclides! Você é um canalha, um pilantra, uma pústula, mas você não vai me deixar sozinha, vai?
EUCLIDES
Claro que não! E depois... eu to com mais medo que você. Como eu me arrependo de tudo que eu fiz. Minha mãe bem que tentou me por no catecismo. Eu não quis! Quem sabe a minha vida tivesse tomado outro rumo. O catecismo era no mesmo horário das aulas de natação... e eu ia ficar sem ver as menininhas de biquíni ! Por isso que eu fiquei Ateu! Achei que Deus é um sujeito malvado que não deixa a gente fazer aula de natação.
DULCINÉIA
Euclides...Euclides...nesse lugar mais pior...deve ter barata Euclides! (Tem uma crise de choro)
EUCLIDES
Meu senhor... eu apelo aos seus bons sentimentos...
DIABO
E eu apelo ao seu raciocínio para não fazer apelos descabidos.  
DULCINÉIA (Chorosa, mal consegue falar)
Senhor... será que ...será que não podia facilitar um pouco as coi... (Chora) Desculpe... não consigo me controlar.
DIABO
Não precisa se envergonhar nem tentar controlar o choro, dona Dulcinéia. Aqui seu sofrimento será sempre apropriado e bem vindo.
     Ela tem uma crise de choro ainda maior.
DIABO
Creio que é chegada a hora de cada um ir ao lugar que lhe é devido.  
EUCLIDES
Então tudo acaba assim?  Tudo acontece por acaso sem o exercício da nossa vontade?
DIABO
Como já disse uma vez, aqui cada palavra tem seu preço e é cobrada a vista.  O senhor já conseguiu uma pequena vantagem. Posso lhes conceder uma última prova que pode fazer o senhor perder o pouco que conseguiu. Mas também pode elevá-lo ainda mais.  Ao purgatório.  Que é o máximo que se consegue nessas paragens.  O mesmo vale para dona Dulcinéia.  O lugar que tem agora, que é muito ruim. Tem uma infinidade de andares que ficam mais abaixo e que vão ficando cada vez piores. Querem arriscar?
OS DOIS
Queremos!
DIABO
Pois muito bem. Um teste muito simples. Até banal. Dona Dulcinéia... para onde o senhor Euclides merece ir?
DULCINÉIA (Confusa)
Acho que o senhor se confundiu.  O senhor está querendo perguntar para onde eu devo ir?
DIABO
Não.  Foi isso mesmo que eu disse: para onde o senhor Euclides deve ir?  Pergunta mais fácil que essa é impossível.  Há segundos atrás era taxativa em afirmar que ele devia descer aos infernos e a senhora ascender aos céus.
EUCLIDES (Revoltado)
Pêra aí! Que negócio é esse? Não tenho direito a me manifestar? A corda vai direto pro meu pescoço?
DIABO
Mas eu lhe disse que já tinha conseguido uma pequena vantagem e lhe perguntei se queria arriscar. O senhor disse que sim. Com isso colocou o próprio destino nas mãos da senhora Dulcinéia. O jogo é pelas minhas regras.  Podia ter ficado com o que tinha... Agora pode ficar sem nada.
EUCLIDES (Mãos a cabeça aflito)
To perdido... to perdido... Meu senhor... por caridade...já que está tudo perdido. Me permita um último cigarro. Melhor... um último maço. Pelo que me espera na eternidade eu creio que não seja pedir muito...
DIABO
Desculpe mas não é permitido fumar aqui.
EUCLIDES (Horrorizado)
O QUÊ? Não é permitido fumar aqui?! Se aqui não pode fumar, onde vai poder?
DIABO
Tudo a seu tempo senhor Euclides. Dona Ducinéia... Não estou ouvindo sua voz. O que não é muito comum. Não vai recorrer às variáveis estocásticas ou a alguma singularidade?
DULCINÉIA (Aflita)
O senhor não pode fazer isso!
DIABO
Mas eu não fiz nada, quem vai fazer é a senhora. Uma coisa tão simples, a senhora foi taxativa em afirmar ser merecedora de um lugar melhor. É só dizer: eu mereço o purgatório e o Euclides os círculos infernais. Pronto!
DULCINÉIA olha aflita e penalizada para Euclides.
EUCLIDES (Indo até ela decidido)
Ambos sabemos o que vai fazer. Então faz logo! Assim acaba com esse martírio e eu posso fumar o meu cigarro.
DIABO
Aqui não é permitido fumar senhor Euclides. Já lhe disse.
EUCLIDES
Mas pra onde eu vou é! Ou não é?
DIABO
Sim é.
EUCLIDES
Pois então...
DIABO
O senhor trouxe cigarro?
EUCLIDES
Como assim?
DIABO
Lá não tem.
EUCLIDES
Pois eu vou pegar as baratas da Dulcinéia botar fogo na cabeça delas e puxar a fumaça pela bunda! Claro... isso se tiver fogo lá embaixo. Se não for proibido pelo corpo de bombeiros.
DIABO
Tem fogo sim senhor Euclides, pode ficar tranqüilo. E então dona Dulcinéia? O seu silêncio chega a ser constrangedor. Confesso estar sentindo falta do som da sua voz.
DULCINÉIA (Indo até Euclides, acaricia seu cabelo, ar comovido)
O que deu errado com a gente Euclides?
EUCLIDES
Tudo! Não tá vendo aonde viemos parar? Deu errado com a gente e com a gente e os outros que ficaram com a gente.
DULCINÉIA
Eu to com medo Euclides... ele disse que tem barata lá.
EUCLIDES
Pode deixar! Eu vou fumar uma por uma.
DIABO
Só uma correção: eu não disse que tem barata lá embaixo.
DULCINÉIA (Aliviada)
Não tem?
DIABO
Tem. Mas eu não cheguei a dizer que tinha. A senhora supôs, acertadamente. O que não chega a ser problema pro senhor Euclides, que vai incluí-las na sua dieta.
EUCLIDES
Eu não vou comer, só vou fumar.
DIABO
Que seja. O seu tempo se esgotou dona Dulcinéia. Para onde o senhor Euclides deve ir?
DULCINÉIA (Aflita)
Diz alguma coisa Euclides! Me ajuda! Que não seja algo relacionado a cigarro, por favor!
EUCLIDES
Todos sabem o que vai fazer. E nem há outra coisa a fazer... Acaba logo com isso. Eu vim parar aqui por culpa própria, por uma dieta inadequada, como você diz. E você, por um azar incrível, por um acidente de avião. É menos culpada do que eu.
DIABO
Acidente de avião?! Dona Dulcinéia morreu ao contrair infecção hospitalar num implante de silicone.
EUCLIDES (Achando graça)
O que? Eu não acredito. (Ri)
DULCINÉIA (Para o Diabo)
Nós sabemos muito bem que o senhor tudo sabe! Mas o senhor não podia ao menos fingir que não sabe de vez em quando? Nós os humanos nos entendemos assim, um finge que fala a verdade e outro finge que acredita. A isso nós chamamos “humana compreensão”.  (Para Euclides, vendo que ele ainda ri) Quer parar? Quer parar?
EUCLIDES
Bem que eu tava achando essa estória de avião esquisita... (Olhando para os peitos dela) E o pior é que não aumentou nada. Pra mim continua pequeno.
DULCINÉIA
Eles não chegaram a colocar imbecil!
EUCLIDES
Ué?! Por que não?
DULCINÉIA
Eu morri, lembra?
EUCLIDES
Mas que falta de consideração! Você deu a vida por eles! Custava terem colocado? Iam dar um volume bonito com você deitada no caixão.  (Ri)
DULCINÉIA
E eu com o coração dilacerado por tua causa.  Seu cafajeste comedor de irmã. Cadê aquele menino que conheci na adolescência? Que fim levou? Quando jovens os homens parecem ursinhos... depois eles ficam velhos...e ficam parecendo ursos. Na certa esqueceu a noite do nosso primeiro beijo. Na pracinha.
EUCLIDES
Como é que eu podia esquecer. Você me bateu!
DULCINÉIA
Claro! Você passou a mão na minha bunda!
EUCLIDES
Mas depois do beijo eu achei que a gente tava namorando
DULCINÉIA
E tava! E isso te dava o direito de passar a mão na minha bunda?
EUCLIDES
Claro! Se não for assim, pra quê namorar?Tá vendo como você é? E eu não virei urso não senhora! Posso até ter virado. Mas e vocês mulheres? Vocês mudam muito mais que nós com o tempo. No início parece tudo perfeito... Os homens sempre procuram a figura da mãe nas mulheres. No principio parece dar certo. Uma coisa linda, mágica... uma mãe com quem a gente pode transar... Mas aí o tempo passa... e elas vão virando madrastas, tias velhas, professoras ranzinzas de matemática... e o que é pior...a gente passa a transar  cada vez menos....
DULCINÉIA
Eu te dei a minha mocidade... a minha virgindade...
DIABO
Creio que seja nesse ponto que eu devo fingir não saber?
DULCINÉIA
Exatamente!
EUCLIDES
A gente cobra tudo do outro.  Mas nunca oferece nada.  Vai ver é por isso que estamos aqui...
DIABO
O tempo acabou...
EUCLIDES
Foi bom te ver...
DIABO
Sua resposta dona Dulcinéia. Pra onde o senhor Euclides deve ir?
DULCINÉIA (Após breve hesitação)
Para onde eu for...
EUCLIDES (Surpreso)
Se tá falando sério? Sério mesmo?
     Os dois se abraçam e se beijam.
DIABO (Rindo)
Parabéns dona Dulcinéia. Uma resposta sincera e sábia. Será feita a sua vontade.
   Os dois se abraçam assustados.
DULCINÉIA
A gente jurou viver juntos pra sempre no casamento e só agora, nesse lugar, isso vai ser pra valer. Eu to com medo Euclides!
EUCLIDES
Eu também! Vai ser agora.  Se prepare pro pior. E no pior tem barata! Não entra em pânico!
DIABO
O destino de vocês foi decidido.
EUCLIDES
A gente é novo aqui meu senhor... será que não podíamos ficar num lugar mais tranqüilo, se adaptando por assim uns... mil anos mais ou menos?
DIABO
Infelizmente não poderei desfrutar da companhia de vocês. Uma pena...
OS DOIS
Como assim?
DIABO
Vocês conseguiram um lugar no purgatório. (Os dois vibram eufóricos) A alegria de vocês só é menor que a minha tristeza. De fato estava até simpatizando com ambos e iria gostar muitíssimo de atormentá-los por toda eternidade...
EUCLIDES (Aliviado)
Não esquenta. Quem sabe uma outra vez.
DULCINÉIA (Puxando-o fortemente pelo braço)
Não vá falar alguma merda e por tudo a perder!
DIABO
A saída é à direita de vocês. Tem uma longa escada parecendo ir ao infinito. No alto dela está o purgatório. Não me perguntem o que tem lá, pois está fora dos meus domínios.
EUCLIDES
Imagine, por pior que seja, vai ser bem melhor do que isso aqui.
DULCINÉIA (Puxando de novo)
Não ouviu o que acabei de dizer?
DIABO
Agora vão.
DULCINÉIA
Não vá dizer algo do tipo: foi um prazer conhecê-lo, te vejo em breve...
EUCLIDES (Para ela)
Ta pensando que sou algum idiota?(Para o diabo) Então tá. Estamos indo então. Olhe... sabe que nos filmes aqui seria bem pior.( Dulcinéia olha furiosa para ele ) Até que é limpinho aqui, não é Dulcinéia?
DIABO
O senhor acha?
EUCLIDES
Claro! O senhor assistiu Spawn, o guerreiro do inferno?
DÚLCINEIA (Puxando-o)
Vamô embora! Vamô embora!
DIABO
Eu só posso me mostrar completamente quando os recém-chegados  foram definitivamente condenados ao castigo eterno. Mas como simpatizei com vocês posso abrir uma exceção.
DULCINÉIA (Aflita)
NÃO! NÃO! NÃO!
EUCLIDES
Já tamô indo! Já tamô indo!
    Se encaminham para saída.
DULCINÉIA
Nós vamos melhorar como seres humanos! Seremos pessoas melhores depois dessa experiência.
DIABO
Espero. Pois do contrário voltarão para cá.
DULCINÉIA
Dessa vez a gente vai passar de ano, não é Euclides?
EUCLIDES
Claro que sim! Foi um prazer conhecê-lo! A gente se vê!
DIABO
O QUÊ?? FORA DAQUI!!
   Os dois saem correndo.


FIM


O MENDIGO


PERSONAGENS:


JONAS
CARMEN LUCIA


         Mendigo deitado no chão. Carmen Lucia entra em cena apressada. Mendigo levanta e vai em sua direção. Ele veste um sobretudo em farrapos e um chapéu amarfanhado .
CARMEN LUCIA ( Se esquivando)
Não tenho dinheiro! Nem adianta.
JONAS
Eu queria falar com você.
CARMEN LUCIA
Não tenho dinheiro, já falei! E por favor  não chegue muito perto que o senhor deve ter piolho.
JONAS
Não está me reconhecendo?
CARMEN LUCIA
Eu não conheço mendigos!  Me dá licença, por favor.
JONAS
Sou eu...
CARMEN LUCIA ( Procurando uma coisa na bolsa. Tira uma bala de hortelã )
Eu te dou essa bala de hortelã e o senhor me deixa em paz.  É bom...refresca e tira o gosto de cachaça da boca...
JONAS
Sou eu Carmen.
CARMEN LUCIA ( Espantada )
Como é que você sabe o meu nome?
JONAS
Lembra do Jonas, seu ex-marido?
CARMEN LUCIA
Claro que eu lembro daquele traste.
JONAS
Pois é...sou eu. O Jonas... Pelo menos o que sobrou de mim... E acredite...Não sobrou muita coisa... ( Ele tira o chapéu para ela vê-lo melhor )
CARMEN LUCIA
Isso é alguma brincadeira? Você não pode ser o Jonas.  É parecido... mas não pode ser ele. O Jonas sabia descer baixo, mas não tanto!
JONAS
Pelo visto você esqueceu rápido os bons momentos que tivemos.  Te dei a coleção inteira do Roberto Carlos e ainda fiz pior...disse que também gostava... Durante anos, no nosso aniversário de casamento tive que ouvir: “ Café da manhã”.  Era como enfiar um prego no ouvido...
CARMEN LUCIA
Não acredito! É você mesmo!
JONAS
Não sei o porque do espanto. Você sempre sonhou em me ver na miséria. Agora que me vê assim não me reconhece?
CARMEN LUCIA
Aí meu Deus! É você mesmo... Mas como é que virou mendigo??
JONAS
É fácil!  Se vai empobrecendo, empobrecendo, empobrecendo...e numa bela manhã, embaixo de algum viaduto, você acorda mendigo.
CARMEN LUCIA  ( Chocada )
To pasma! É você mesmo?
JONAS
Sou eu Carmen. To no fundo do poço.
CARMEN LUCIA
To vendo...
JONAS
Eu preciso da tua ajuda Carmen...
CARMEN LUCIA
Meu Deus eu não to acreditando... ( Pega o celular, disca )
JONAS
Eu preciso de você Carmen, da sua misericórdia, dos seus sentimentos cristãos.
CARMEN LUCIA ( Enquanto aguarda que atendam o celular)
Claro que sim, Jonas. Pode contar comigo.
JONAS
Eu não tenho mais a quem recorrer.
CARMEN LUCIA
Sê tá morando onde?
JONAS
Em lugar nenhum... eu sou mendigo , lembra?
CARMEN LUCIA
Ah tá. ( Atendem ) Doutor Rosenthal?! É Carmen. O senhor não imagina. Encontrei o meu ex-marido Jonas.  Tá na minha frente! (...) Pois é, eu achando que tinha fugido pra não pagar pensão.  Do nada  apareceu. To boba! To passada! Preciso que mande uma viatura pra cá urgente! A ordem de prisão ainda ta em vigor? ( Jonas se espanta) (...) Sei... To na esquina de casa. No posto de gasolina fica sempre uma viatura da Rota parada.  Liga pra um delegado amigo do senhor, assim eles fazem a coisa direitinho. (...) Claro que não! Não tenho como segurar ele. Mas tá magro, tá troncho, virou mendigo... Mesmo fugindo ele não deve conseguir ir muito longe.  O senhor dá um pulinho até aqui? (...) Eu espero. Traz o valor total da pensão atrasada e  os outros acertos pendentes pra mostrar pro juiz. (...) Só isso?? Mas o senhor calculou com o juros? (...) Aaaahh... Logo vi que era muito pouco.  Sem o juros.  Esse trabalhão todo pra conseguir cinqüenta mil reais?! Não dá! (...) Não! Sem acordo! O dinheiro já é tão pouquinho, se fizer um acordo vou receber o quê? Um cafezinho? (...) ( Ela dá uma olhada analítica nele, anda em torno dele ) Olha...pelo que ele me disse e pela aparência, ta vivendo mesmo da mendicância. Mas isto não quer dizer nada! Vi uma reportagem no fantástico sobre mendigo profissional, até com casa alugada! (...) Eu espero o senhor. Espero... Faz o seguinte, Doutor Rosenthal, faz um cálculo mesmo provisório com os juros.  Pra gente ter um valor aproximado, o Juiz pode pedir.  É juro composto, né doutor? Juros sobre juros, igual cartão de crédito? (...) Tá certo. Eu aguardo o senhor.
JONAS
Eu achei que minha situação ia te comover... É bonito ver a sensibilidade feminina em ação...
CARMEN LUCIA
E não venha querer dar uma de vítima. Devia me agradecer. Na cadeia  vai ter casa , comida e roupa lavada.  Não vai ficar pelas ruas tomando sol e chuva.  Eu é que tenho de cortar um dobrado pra sobreviver!  É cartão de crédito, é condomínio, é carnê de loja.  Sem falar no que gasto por mês com gasolina. To vendo a hora em que vou passar a andar de ônibus. Enquanto isso , o senhor por aí vagando livre feito um passarinho. Aqui não violão.  Vai ter que acertar o que me deve.
JONAS
Eu ainda nem comi hoje, Carmen...
CARMEN LUCIA
Nem eu! Meu endocrinologista me passou uma dieta de 800 calorias.  Sê deve comer bem mais do que eu...
JONAS ( Passando a mão no estômago )  
Acho que vou aceitar aquela bala de hortelã que você me ofereceu...
CARMEN LUCIA
Te ofereci uma vírgula, achei que fosse um mendigo.
JONAS
Mas eu sou um mendigo!
CARMEN LUCIA
Você  é meu ex-marido! Quando muito tem direito a meia bala. Só que eu não vou arriscar quebrar meu dente dividindo uma bala com você.  Fica quietinho aí que a polícia já ta vindo.  Eles devem te dar um lanchinho na cadeia.  Sê tomou banho hoje?
JONAS
Eu tomei chuva ontem.
CARMEN LUCIA
Então tá. É só ter um pouquinho de paciência que o doutor já vem. Aí vai poder matar a sua fome, acertar suas contas com a justiça e principalmente, comigo...
JONAS
O que é preciso pra despertar sua compaixão? Morrer?
CARMEN LUCIA
Cliente morto não paga , meu bem! Quero você vivo. E depois essa sua miséria não me convence. Sê ta muito troncho, muito acabado, muito raquítico , muito esquálido... deve ganhar um dinheirão com esmola! É impossível alguém te ver e não sentir pena.  Já deve ter uns dois ou três barracos alugados na favela. Confessa.
JONAS
Eu to dormindo embaixo de marquise Carmen!
CARMEN LUCIA
E cadê os seus amigos?
JONAS
Continuam no mesmo lugar.  Os que procurei tiveram uma reação igual a sua.
CARMEN LUCIA
Duvido! Eles não iriam ter tanta consideração com você!
JONAS
Consideração? Você chamou a polícia pra me prender!
CARMEN LUCIA
Pra você pagar o que me deve!
JONAS
Como espera que um mendigo consiga 50 mil reais?
CARMEN LUCIA
Alto lá! Ninguém aqui falou em cinqüenta mil reais, não senhor! Tem o juros. É juros composto! Não tem essa estória de juros simples, não! É um juro em cima do outro!
JONAS
Eu apelo aos seus sentimentos cristãos, Carmen.
CARMEN LUCIA
Mas você é ateu!
JONAS
Você não, ora bolas. To implorando aos seus sentimentos e não aos meus!
CARMEN LUCIA
Onde já se viu um ateu, cobrar dos outros sentimentos cristãos?
JONAS
É obrigação de todo cristão saber como  tratar  seu semelhante.
CARMEN LUCIA
Mas você não é meu semelhante! É meu oposto, meu ex-marido.  To te tratando na forma da lei. Por isso chamei a polícia! Dura Lex, Sed Lex. A  lei é dura, mas é a lei . Faz assim. Fica quietinho, não tenta fugir nem dar alteração senão sê acaba apanhando.  Polícia não tem paciência com homem na sua situação. Sê ainda quer a bala de hortelã?
JONAS
Claro que eu quero!
CARMEN LUCIA
Então fica quietinho que quando a polícia chegar eu te dou.
JONAS
Como você é desumana...Nem quer saber porque vim te procurar?
CARMEN LUCIA
Ora... pra pedir auxílio. Não era isso que estava tentando fazer, apelando pros meus bons sentimentos? Pois então... eu estou me esforçando, já arranjei um lugar pra você ficar. Um teto.  Mas tudo bem...gratidão nunca foi o seu forte. Aliás...como é que um homem acaba desse jeito, meu Deus?
JONAS
Um bom começo é casando com mulheres como você.  “Atrás de um grande homem existe sempre uma grande mulher” . E atrás de um homem como eu existe sempre uma ex-mulher.
CARMEN LUCIA
Ah é?! Fica tranqüilo, quem sabe na cadeia você arranje um marido. Aí vai provar um pouco do muito que nós mulheres temos que aturar. Quem sabe aí você vai me dar valor.
JONAS
Mas os meus “valores” já ficaram com você. Foi assim que fiquei mendigo . Esse seu advogado é um gênio! Conseguiu uma divisão meio a meio, onde você ficou com uma metade, que era tudo e eu fiquei com a outra metade, que era nada!
CARMEN LUCIA
É o que eu sempre digo, homem ruim de matemática tem que morrer solteiro. Ter uma mulher como eu ao seu lado já era um patrimônio. Que você não soube dar o justo valor. Mas é esperar demais que um mero “homem” , entenda o espírito feminino...
JONAS
Tem razão. Se Adão tivesse esse dom, hoje eu estaria vivendo no paraíso e nadando em rios de leite e mel.
CARMEN LUCIA
Por conta dessa observação, além do leite e do mel, você vai ficar sem a balinha de hortelã também.
JONAS
Eu tenho uma proposta pra te fazer Carmen!
CARMEN LUCIA
Eu também. Pague o que me deve e a polícia te solta.
JONAS
Tô falando sério Carmen.
CARMEN LUCIA
Eu também !
JONAS ( Irritado)
Decididamente você me enlouquece! Deve estar feliz de me ver assim! Devo ser o sonho de consumo de toda mulher!
CARMEN LUCIA  ( Estranhando )
Ter um marido mendigo?
JONAS
Não! Ver o ex-marido virar mendigo!
        Ela solta uma gargalhada.  Depois se contém. Forçosamente séria.
CARMEN LUCIA
Isso sim não seria um ato Cristão... Jamais sentiria prazer com a sua desgraça. Seria muito sadismo da minha parte me divertir te vendo assim...derrotado,  um  farrapo humano, um nada! Seria um enorme pecado... ( Contendo o riso ) ( Falando para os céus) Perdão senhor, eu pequei...
       Cai na gargalhada.
JONAS
Isso! Ri viúva negra! É mais um vestidinho preto na sua lista! Pode rir. É da natureza das viúvas negras destruir os machos que tiveram a má sorte de cruzar o seu caminho.
CARMEN LUCIA  
É bem mais divertido do que ver os tais machos nos trocarem por aranhas mais novas... Sê ficou tão engraçado assim. Nunca imaginei  que  a  miséria lhe caísse tão bem.... Pena que a polícia tá chegando, por mim passava a noite toda contemplando a sua desgraça.
JONAS
Tá aí uma frase prum pretenso “ cristão” explicar no dia do juízo final.  
CARMEN LUCIA  ( Rindo )
Vou alegar legitima defesa. Vai ver pecar contra um pecador ainda maior, nem é pecado.
JONAS
Criatura sem coração...Tentaram me tocar fogo uma vez enquanto eu dormia...
CARMEN LUCIA  ( Surpresa )
Sério?! E você não tem medo de ficar me dando esse tipo de idéia?
JONAS
Você não pode ser essa pessoa. Existe algo de humano aí dentro. Tem que haver!
CARMEN LUCIA
E você conhece algum animal que consiga sentir prazer num ato de vingança?
JONAS
Só mesmo o desespero pra me fazer te procurar. Quando a razão se ausenta, uma desgraça já grande é substituída por outra ainda maior.
CARMEN LUCIA
Você disse algo parecido no nosso divórcio, lembra? Na frente do Juiz e dos advogados.  E ainda fez uma referência pouco elogiosa a minha mãe...Como foi mesmo que você falou... Lembrei! “ Semelhante criatura não pode ter sido gerada no útero de uma mulher e sim em algum outro orifício próximo”.  A criatura no caso era eu...quanto ao orifício...
JONAS
Pelo amor de Deus, Carmen!! Foi um comentário infeliz, dito num rompante!
CARMEN LUCIA
Claro! Não existe um único ato seu que não tenha uma atenuante. Foi uma das maiores humilhações da minha vida! Até o Juiz riu na minha cara!
JONAS
Mentira!! Ele me deu o maior esporro! Ameaçou me expulsar do recinto, me prender!
CARMEN LUCIA
Depois! A primeira reação dele foi conter um risinho cínico. Só depois ele deu o esporro. Uma “Viúva Negra”, como você diz, jamais passa por esse tipo de constrangimento... ( Pensativa ) Poxa...visto por um certo ângulo, o comportamento das viúvas negras tem uma certa lógica...
JONAS
Claro! O problema delas é não ter a quem pedir pensão alimentícia ....
CARMEN LUCIA  ( Furiosa )
Decididamente você desperto o que há de pior em mim! Não quer tirar uma soneca no papelão enquanto eu vou ao posto comprar gasolina?
JONAS
Eu vim em missão de paz Carmen.
CARMEN LUCIA
Você está sendo muito eficiente! Parabéns! Vendo por esse ângulo faz sentido ter virado mendigo.
JONAS
As vezes é difícil acreditar que homens e mulheres pertençam a mesma espécie... Se os Dinossauros tivessem continuado, o desempenho entre macho e fêmea seria bem melhor.
CARMEN LUCIA
Claro! Hoje eu estaria diante de um lagarto maltrapilho e sem caráter querendo me enrolar!
JONAS
Mas eu vim te propor um acordo. Um negócio. Uma saída pra mim e um bom lucro pra você.
CARMEN LUCIA
Se for uma porcentagem nas esmolas pode esquecer. E nem é pelo valor. É que fatalmente você iria arranjar um jeito de me passar pra trás.
JONAS
Eu ainda tenho um terreno na praia das Pitangueiras. Mas não tenho como acertar os impostos pra poder vender.
CARMEN LUCIA
Mentira! Se tivesse eu saberia.
JONAS
Se você soubesse ele não seria mais meu. Você e seu advogado já teriam tirado de mim. Ele está em nome de uma empresa com sede no exterior. Ia esconder a maior parte dos meus bens de você e do fisco assim. Mas não tive tempo.
CARMEN LUCIA  ( Irônica )
Puxa vida...agora sim eu tenho um bom argumento pra confiar em você...
JONAS
O terreno vai a leilão por causa dos impostos atrasados! Aí não vai valer nada nem pra mim nem pra você. Eu mau tenho como pagar uma média com pão e manteiga. Porém posso transferir a empresa pro seu nome e automaticamente se tornaria dona do terreno. Aí a gente acerta os impostos e vende o terreno. O valor do imposto nem é tão grande. Porém é inatingível pra um mendigo.
CARMEN LUCIA  ( Desconfiada )
Sei... e você leva o que nisso?
JONAS
Metade do preço de venda. Daí eu terei como recomeçar a vida.
CARMEN LUCIA  ( Pensativa )
Mas não é que o Fantástico tinha razão...
JONAS
Como é que é ?
CARMEN LUCIA
A reportagem sobre os mendigos que tem casa alugada. Você tem até terreno na praia! A próxima vez que um mendigo me estender a mão pra pedir esmola, vou dar um tapa na mão dele.
JONAS ( Aflito )
Então Carmen?
CARMEN LUCIA
E se eu não topar? Você vai fazer o que?
JONAS
Procurar o Adamastor.
CARMEN LUCIA  ( Espantada )
Adamastor?? O Adamastor? Um picareta, vigarista, dono de desmanche  com mais de vinte processos nas costas? Você teria coragem de procurar um sujeito desses?
JONAS
E o que  que  tem? Não procurei você?
CARMEN LUCIA  ( Não gostando do comentário )
Sabe que essa sua frase não me caiu muito bem...Senti uma certa insinuação maldosa por trás. Um certo veneno...
JONAS
Só encontrei três opções para resolver meus problemas. Você e ele estão entre elas. Se vim te procurar primeiro é porque em algum grau eu te considero melhor que o Adamastor.
CARMEN LUCIA  ( Incomodada com o comentário )
Sabe que esse ‘quase elogio’ me caiu pior ainda?
JONAS
Desculpe mas é difícil um raciocínio mais elaborado com pouco  carboidrato no corpo...
CARMEN LUCIA
Você disse três opções... a terceira seria?
JONAS
Deitar nos trilhos do trem.
CARMEN LUCIA  ( Séria )
Acho melhor eu não perguntar se está falando sério.
JONAS
Também acho.
CARMEN LUCIA
Tem alguma prova de que esse terreno existe? Que não é tudo conversa fiada?
JONAS
Claro que tenho.
     Ele retira uma pasta do meio dos papelões no chão.
CARMEN LUCIA  ( Verificando o conteúdo da pasta )
Agora sim...a escritura...a empresa...valor de mercado... R$ 450 mil!? Tudo isso... Nossa...a documentação tá toda pronta. Onze mil de imposto... Transferência de titularidade... Mas a data aqui é antiga?
JONAS
Claro! É a data da criação da empresa, parecerá que sempre foi sua.
CARMEN LUCIA
O nome da empresa é Cavalo de Tróia?! Então você cria uma empresa no exterior pra me enrolar e enrolar o fisco e bota o nome de Cavalo de Tróia?
JONAS  
Foi o nome que me ocorreu. E depois é uma empresa de fachada, só existe no papel.
CARMEN LUCIA
Brilhante idéia! Podia ter colocado ‘Dinheiro Sujo Sociedade Anônima’. Realmente faz sentido ter virado mendigo... Mas essa documentação está toda pronta, só faltam as  assinaturas... Onde conseguiu isso??
JONAS
Ora...meu advogado preparou.
CARMEN LUCIA
Mas que raio de mendigo é você que tem até advogado?
JONAS
Ele também é mendigo.
CARMEN LUCIA  ( Espantada )
O que?! E como é que um advogado vira mendigo?
JONAS
Ele casou cinco vezes.
CARMEN LUCIA
Vocês homens precisam pensar um pouco antes de tirar o pinto da cueca.
JONAS
É que a gente nunca imagina que tirar o pinto da cueca é igual a colocar a corda no pescoço.
CARMEN LUCIA
Cinco vezes??
JONAS
Não seja por isso... eu casei só uma vez e também virei mendigo...
CARMEN LUCIA
Pois é...a cabeça não pensa e o corpo padece. ( Pensativa )  Sabe que estou tentada a confiar em você...
JONAS
Só que essa tentação é minha cara-pálida. ( Tira a pasta das mãos dela ) Eu é que vou ter que confiar em você. Quem me garante que não vai tentar me passar a perna?
CARMEN LUCIA
Quem você pensa que eu sou?
JONAS
A Carmen! A penúltima pessoa em quem se pode confiar. Na frente apenas do Adamastor e dos trilhos do trem.
CARMEN LUCIA
Pra quem veio pedir um favor, não está exigente demais? Você é um mendigo lembra? Tem que fazer cara de coitado e esticar a mão pra ganhar uma moedinha.
JONAS
Não sei não...no início me pareceu uma idéia aceitável te procurar, mas agora que estou com você , na sua frente, o Adamastor não me parece tão ruim assim...
CARMEN LUCIA
Claro! Quem pode ser mais confiável numa transação do que um estelionatário contumaz , dono de um desmanche?! Quem sabe em troca do terreno ele lhe dê um carro zero montado por ele mesmo...
JONAS
É minha vida que está em jogo Carmen!
CARMEN LUCIA
Mas criatura, o que sua vida vale atualmente? Se for trocada por cachaça não mata a sede nem de meia dúzia de mendigo.
JONAS
Eu preciso de uma garantia.
CARMEN LUCIA  ( Beijando os dedos em gesto de jura )
Juro por Deus. Pela minha mãe mortinha.
JONAS
Para um Ateu praticante jurar por Deus está longe de ser uma garantia. Quanto a vida da senhora sua mãe...eu prefiro evitar um comentário ainda mais desagradável. Eu tenho uma terceira opção. Você me assina uma promissória.
CARMEN LUCIA  ( Dando uma gargalhada )
Eu já imaginava. Estava apenas esperando em que ponto da conversa ia dizer isso. Promissória? Na sua mão? Nem pra salvar minha própria vida!
JONAS
Mas eu preciso de alguma garantia! Você tem que me dar uma contraparte, eu vim aqui de coração aberto Carmen.
CARMEN LUCIA  ( Irônica )
Coração?! Onde você arranjou isso? Não vai me dizer que além de mendigar você também revira lata de lixo? Se jogaram fora é porque ele não prestava mais querido, não adianta ficar usando...Deve ter angina, endocardite...
JONAS
É só uma garantia Carmen. O dinheiro vai ficar todo nas suas mãos. Você dá a minha parte e eu rasgo a promissória.
CARMEN LUCIA
Mesmo na hipótese assaz improvável de você estar falando a verdade. Assim que comer um sanduiche de mortadela, a fome vai diminuir . E vai aflorar essa coisa ‘cafajeste’ que eu chamo de ‘você’ e você chama de ‘eu’. Não se iluda, essa sua ‘sensibilidade’ é fome.  Não sobrevive nem a um pão com manteiga. Promissória... nem pensar!
JONAS
Você quer que eu simplesmente confie em você sem nenhuma garantia?
CARMEN LUCIA
Tem melhor negócio? O Adamastor vai te passar pra trás até pelo dever de ofício. Onde iria parar o nome dele diante dos vigaristas? Deixando passar um pato semi-depenado?  Ficaria desmoralizado, seria motivo de chacota. Claro...temos ainda a opção dos trilhos do trem... Não tem trem na região... Mas para que não me acuse de ser insensível, eu te dou o dinheiro pro taxi querido.
JONAS
Na última divisão meio a meio que fiz com você eu fiquei sem nada! Como é que você chama isso?
CARMEN LUCIA
Justiça divina! Vitória do bem sobre o mal! E tem mais um detalhe...Dessa vez vou ficar com dois terços.
JONAS
O QUÊ???
CARMEN LUCIA
Isso que ouviu.  Essa sua operação está longe de ser uma coisa lícita.  E pra abrir mão dos meus princípios eu costumo cobrar mais caro. ( Jonas ameaça falar e ela o interrompe ) Eu pediria pra você pensar um pouco no que vai dizer...Respira...Toma fôlego e fala só a parte boa da frase.
JONAS
Puta-que-pariu Carmen!!
CARMEN LUCIA
Essa é a parte boa?
JONAS
É! É o melhor que tenho a dizer!
CARMEN LUCIA ( Pega a calculadora na bolsa )
Então tá...Deixa eu calcular. São 450 mil. Vamos tirar vinte pros impostos e afins. Ficam  430 mil , divididos por três e arredondando, da 143 mil cada parte.  Duas partes dão  286 mil.  Pronto, tá dividido!  286 mil pra mim e 143 mil pra você. Se não estiver bom pode ganhar nada com o Adamastor ou o descanso eterno na linha do trem. Você escolhe a melhor proposta.
JONAS
Então tá! Eu aceito e você assina a promissória. Ficam elas por elas.
CARMEN LUCIA
De novo a promissória... Não esqueceu isso ainda?  ( Pensa um pouco ) Dá ela aqui.
     Jonas dá a ela a promissória. Ela olha e rasga o documento em duas partes e entrega a ele.
JONAS ( Com a promissória rasgada nas mãos )
Eu não acredito! Eu não acredito!
CARMEN LUCIA ( Pega novamente o papel )
Ah não?! Vou fazer de novo pra você ver.
   Rasga novamente e devolve a ele.
CARMEN LUCIA
Pronto! Acredita agora?
JONAS
Ficou louca? Só tinha essa!
CARMEN LUCIA
Ótimo! Assim a gente pula a parte do ‘Me assina uma promissória’ e vai direto ao ponto.  Ou é assim ou não é de jeito nenhum.  Como vai ser?
   Jonas pensa um pouco.  Faz um certo suspense e dá a pasta com os documentos  a ela.
JONAS
Você jura pelo que há de mais sagrado que não vai me passar pra trás? (    
CARMEN LUCIA
Eu tenho hombridade Jonas.  Sou uma mulher de palavra. Não vou ficar com a sua parte nem nada de seu, pode ficar tranqüilo.
   Ela assina os documentos. Dá algumas vias a ele.
JONAS
Pronto! Agora você  é a dona da Cavalo de Troia Trading Investments.
CARMEN LUCIA
Agora vou te mostrar que tenho palavra.  ( Pega o celular, disca, atendem )Doutor Rosenthal.  É Carmen Lucia de novo. Não precisa mais mandar a polícia. Eu e meu ex-marido entramos num acordo. (...) Isso. E pode considerar como pagas todas as dívidas que ele tem comigo. Acerte tudo na justiça, a partir de agora ele não me deve nada. ( ... ) O senhor calculou? Quanto deu? ( ...) Que maravilha.  Mas não precisa mais se preocupar com isso. ( ...) Sim, acertamos tudo. Tenho um outro assunto urgente pra tratar com o senhor, sobre uma empresa que adquiri. Tem um  terreno que quero por a venda. Urgente! Eu to correndo pro seu escritório e a gente conversa.  A gente conversa pessoalmente. (...) Pro senhor também. Vinte minutos no máximo estou aí. ( Desliga ) Pronto .
JONAS
E então? Como vai ser?
CARMEN LUCIA
O doutor Rosenthal também lida com venda e compra de imóveis.  Melhor. Assim trato tudo com ele. Não dou um mês para ele conseguir vender o terreno. Vai ser fácil. Numa praia daquelas... Que maravilha!
JONAS
Sim! Mas e a minha parte? Preciso de um adiantamento até sair o resto.
CARMEN LUCIA
Que resto? Você já recebeu a sua parte.
JONAS ( Assustado )
COMO É QUE É??
CARMEN LUCIA
Ora...não me ouviu ao telefone? Mandei o Doutor Rosenthal zerar todas as dívidas que tinha comigo. Você está livre pra seguir sua vida.  Não me deve mais nada.  Está tudo quitado, inclusive as mágoas.
JONAS
Que brincadeira é essa Carmen? A minha parte são mais de cento e quarenta e três mil e a minha dívida com você era cinqüenta mil!
CARMEN LUCIA
Quem disse isso!!! Cinqüenta mil uma ova! E o juros? E é juro composto, igual cartão de crédito! Um em cima do outro! Não é juros simples não!
JONAS
O QUÊ??
CARMEN LUCIA
Claro! O doutor Rosenthal me passou os números.  Sua dívida estava em cento e cinqüenta e dois mil. Se eu fosse levar a ferro e a fogo, você ainda estaria me devendo nove mil reais! Mas eu sou assim...eu sou coração, eu sou sentimento... Por isso, em respeito a sua situação, eu abri mão dos nove mil reais...
JONAS ( Aflito )
Não brinca comigo Carmen! Essa dívida não tinha nada a ver com nosso acordo! Você vai me deixar, de novo, sem nada??
CARMEN LUCIA
Jonas...você tem agora o que poucas vezes teve na vida  : a consciência tranqüila e a certeza do dever cumprido.  Mas olha...você se emocionou demais por hoje. Tá exaltado.  Faz assim... Deita aí no seu papelão e descansa um pouco, que eu tenho um assunto urgente pra resolver e não posso mais te dar atenção... Sou empresária agora... E vida de empresária é assim...corrida. ( Faz menção de sair mas pára lembrando de alguma coisa. Pega a bala de hortelã e dá a ele) Toma. Como eu havia prometido. ( Sai )
   Jonas fica de frente pra platéia com a bala na mão e um ar de perplexidade. Carmen sai.  Ao ver que ela saiu ele se abre num largo sorriso. Tira o sobretudo de mendigo, sob ele está vestindo um terno alinhado.  Ajeita a gravata, espana o terno com as mãos.  Pega o celular, disca, atendem.
JONAS
Ramiro...Deu certo! O peixe engoliu a isca. ( ... ) Não. Improvisei.  Me vesti de mendigo.  ( ...)  Sério.  Mendigo. ( ...) Isso mesmo. Não to brincando!  Usei o lance do terreno pra ela assinar os papéis da empresa bichada. A vontade de me passar pra trás foi tanta que ela nem me perguntou se a Cavalo de Troia Trading Investments tinha algo além desse terreno...mau sabe ela. ( Ri )...Já pode vazar o nome da empresa pra polícia federal.  É bom eles pegarem ela  negociando o terreno.  Aí  não vai ter como dizer que não sabia. ( ... ) Com certeza! Mas ela não terá como provar nada. A empresa tá no nome dela.  Que tenho eu a ver com isso? E já imaginou quando contar que recebeu a empresa do ex-marido, na rua, vestido de mendigo? Não há juiz no mundo que acredite.  Tô pensando em processá-la por injúria, calúnia e difamação quando  bater o pé dizendo que o culpado sou eu. Que que sê acha? Ia valer como um sossega-leão. ( ...)  Quanto tempo será que ela vai pegar de cadeia? (...) Três anos?! Passa rapidinho.  E ela tá meio gordinha, é bom pra perder uns quilos. Vamos ver se a justiça cumpre a sua parte e confisca todos os bens que ela me tomou no divórcio. (...)  É... Dura Lex, Sed Lex. E o pior você não imagina…Ela ficou com a empresa, o terreno e  me deixou sem nada de novo!   Sê acredita? ( ...) Pois é...quando eu falava você dava risada... Faz assim, passa na minha casa a noite. Vamos dar uma festinha, regada a muita champanha e muita mulher! Agora sou um homem de bem, não preciso mais me esconder. (...) Beleza.  Eu te espero. ( Desliga)
   Jonas olha para a bala de hortelã. Vai abrindo.
JONAS ( Para si mesmo enquanto abre a bala )
As mulheres adoram dizer que homem é tudo igual, só muda o endereço, que homem nenhum presta... ( Suspira ) Mas sabe que as vezes chego a achar que elas tem razão...
   Coloca a bala na boca e sai de cena.


                       FIM

REGISTRO:  2670/14 e 11.903

Textos estão protegidos pelas Leis brasileiras de Direito Autoral. É obrigatório que se solicite permissão para ser montado. Não fazê-lo será passível de ações legais. Para solicitação, falar com o autor DURVAL CUNHA  pelo e-mail: altamirando66@hotmail.com