ÁCIDO SULFÚRICO texto ampliado





REGISTRO: 2670/14 e 11.903

Textos estão protegidos pelas Leis brasileiras de Direito Autoral. É obrigatório que se solicite permissão para ser montado. Não fazê-lo será passível de ações legais. Para solicitação, falar com o autor DURVAL CUNHA pelo e-mail: altamirando66@hotmail.com.

ÁCIDO SULFÚRICO (texto ampliado)



PERSONAGENS:


AGENOR
LIDIANE
OLIVIA


        Lidiane entra em casa e dá de cara com um tambor de duzentos litros com ácido sulfúrico em plena sala, além de um plástico preto forrando o chão. Ela se espanta.
LIDIANE
Mas que diabo é isso? (Examina o tambor) Ácido sulfúrico 98 por cento! Será que o Agenor enlouqueceu? 
Entra Agenor.
LIDIANE
Ah...ta em casa?! Posso saber o que esse ácido sulfúrico faz aqui? Vai incluir na partilha do divórcio?
AGENOR (Tranqüilo)
De certa forma sim Lidiane...
LIDIANE 
Não levou suas coisas? Ta fazendo o que aqui? O combinado era vir quando eu estivesse em casa. Eu chego e dou de cara com você e um tambor com ácido sulfúrico? Vai montar uma saboaria, vai refinar cocaína na sala? Não mora mais aqui. Faça isso na sua casa. O acerto já foi feito e não será mudado.
AGENOR 
Sim,foi...mas meu contador não aprovou...
LIDIANE 
Como é que é? O seu “Contador” não aprovou? Eles também cuidam de divórcio?
AGENOR 
Cuidam de dinheiro...que é a mesma coisa. O prejuízo seria grande.
LIDIANE 
Tem uma opção mais em conta? 
AGENOR (Sacando uma pistola com silenciador)
Pois é...eu tive sim.
LIDIANE (Assustada)
Que palhaçada é essa Agenor? O que ta pretendendo?
AGENOR 
Ficar viúvo.
LIDIANE 
Não sei em qual camelô comprou isso, mas vou alegar em juízo que era de verdade e me ameaçou de morte. Passei a ter síndrome do pânico depois do episódio. Essa brincadeira vai sair caro. Seu ‘contador’ não vai gostar nenhum pouco.
AGENOR 
Pois é minha querida...a arma é de verdade... 
LIDIANE (Sem acreditar) 
Sei...você! Um palerma, um molóide, ex-escoteiro, ex-lobinho...tem uma arma com silenciador... Quer que eu acredite nisso?
AGENOR 
Não se preocupe. Vou fazer uma demonstração. (Aponta) Mas presta atenção que só dá pra fazer uma vez.
LIDIANE (Se desviando da arma) 
Não! Não! Vamos conversar! Não estou te reconhecendo... Ta maluco? Essas armas são pra assassino de aluguel, serial killer...
AGENOR 
Nunca cobrei nada...
LIDIANE 
Como assim? Ta me assustando Agenor...
AGENOR 
Pois é Lidiane... descobriu meu segredinho... A propósito, lembra da estória de quando eu era escoteiro e um garoto se afogou no acampamento?
LIDIANE 
O que tem?
AGENOR 
Fui eu...
LIDIANE 
Meu Deus...o que ele te fez?
AGENOR 
Nada. Apenas segurei a cabeça dele embaixo d’água por dez minutos...
LIDIANE 
Está jogando baixo. Sabe que minha mãe foi morta por um maluco, um serial killer. Eu tenho trauma... Vou usar isso pra justificar a síndrome do pânico. Junto com a ameaça de morte vai dar uma boa indenização. Seu contador é que vai querer morrer. 
AGENOR 
Pois é...veja você o que é o destino. Você e sua mãe terem o mesmo fim... Mas não é uma coincidência improvável. Quem matou sua mãe... fui eu.
LIDIANE (Surpresa)
O quê?... O serial que matou minha mãe, que chamam de ‘Noturno’...é você?
AGENOR 
Exatamente... Mas não se sinta mal por isto. Não será mais uma. Você é especial. Mesmo se não fosse assassino eu ia querer te matar. Qualquer homem que casasse com você ia querer o mesmo. Você desperta isso nas pessoas. 
LIDIANE 
Agora eu entendo as suas esquisitices... Sumir de uma hora pra outra, lavar o carro de madrugada. Jogar fora sapatos novinhos e até roupas...
AGENOR 
Luminol! A versão líquida do dedo-duro. Tenho ódio de luminol! Qualquer vestígio de sangue ele detecta. Um inferno... Aliás, procure ficar em cima do plástico preto. Acho que ficou curto...devia ter comprado maior. 
Ela fica de joelhos ar de súplica.
LIDIANE 
Eu imploro ! Pelos bons momentos que tivemos!
AGENOR 
Ah é?! E quais foram?
LIDIANE (Quase chorando)
Dentro do seu coração, bem no fundo, ainda existe respeito e carinho por mim...
AGENOR 
Mas Lidiane eu sinto carinho por você, eu te respeito. Seria incapaz de te tratar com palavrões e xingamentos, como os ex-maridos fazem. Longe disso... Eu vou só te matar minha flor.
LIDIANE 
Então é pra valer? Você é mesmo esse tal ‘Noturno’...
AGENOR 
Sou! Mas veja as coisas pelo lado positivo. Em minutos vai saber se existe vida após a morte.
LIDIANE (Ainda na posição de súplica) 
Você não vai me poupar não é mesmo?
AGENOR 
Não posso... Meu contador foi taxativo. Os números são muito claros. 
LIDIANE
Foi ele que mandou me matar?
AGENOR
Claro que não! Mas disse que qualquer coisa era melhor que o divórcio. A idéia de ficar viúvo foi minha. Segundo ele, casamento é igual Crack, fácil de entrar e difícil de sair. Ele fez as contas ; uma boa diarista, alguns eletrodomésticos e um bom cartel de garotas de programa, tornam a figura da esposa dispensável. Esposa, em termos financeiros, é tão ruim quanto título de capitalização. Aqueles que Gerente de banco oferece até pra cachorro que passa pela calçada. Eles não sabem, mas deviam oferecer as esposas também. Eles e os bancos sairiam ganhando. Você mal sabe fritar um ovo, precisa de empregada pra tudo. Quanto ao sexo...bom...nem é preciso comentar. Sexo com a esposa só é bom quando é a esposa de outro cara. 
LIDIANE (Levanta. Abandona instantaneamente o ar de súplica e medo. Retorna a mesma postura mandona do início) 
É uma boa argumentação. Claro... Quando se é um maníaco, um psicopata, uma aberração mental e social. Então ta... Mas voltando ao ponto: pra quê o ácido sulfúrico? Pretende refinar cocaína aqui?
AGENOR (Estranhando a reação dela) 
Na verdade é pra dissolver seu corpo na banheira. Depois eu te coloco no tambor e derramo num córrego qualquer.
LIDIANE 
Sei... E quando alguém perguntar: “ Agenor cadê a Lidiane? O que aconteceu com ela? “ Vai dizer o que?
AGENOR 
Sumiu misteriosamente. Sem deixar vestígio. Deixando apenas um rastro de tristeza e saudade...Ficarei inconsolável durante meses, terei crises depressivas terríveis...
LIDIANE 
Sei... E como vai conseguir por a mão no meu seguro sem ter um corpo?
AGENOR (Ar de preocupação) 
Menina...tô preocupado... Não vai ser fácil. A seguradora vai dizer que está viva em algum lugar, que fugiu com o amante. Tudo para não pagar o seguro. Esses caras são uns bandidos. Tem alguma sugestão?
LIDIANE 
Mas você é um usurpador mesmo...Além de um grande mentiroso. Devia se envergonhar. 
AGENOR (Estranhando) 
Eu perdi alguma coisa? Eu ainda vou te matar sabia? As pessoas costumam fazer citações religiosas, implorar pela ajuda divina. E você não citou Deus uma única vez. Não costuma funcionar, mas quem sabe no seu caso dê certo. 
LIDIANE 
Deixa de ser palhaço! Não é só você que tem os seus segredinhos... A propósito...Não foi você quem matou minha mãe.... Ela foi morta por outro ‘caçador de gente’.
AGENOR (Surpreso)
Ah não?! E quem seria?
LIDIANE 
Primeiro confessa que ta contando vantagem. Que mentiu...
AGENOR (Confuso) 
Que papo é esse? Mesmo que fosse mentira, como poderia saber? Você nem sabia desse meu, digamos, lazer clandestino?
LIDIANE 
Pois é... e como o senhor tomou como seu o feito de outro e já que a polícia pensa da mesma forma, quem é que sobra?
AGENOR 
Ora...o assassino...
LIDIANE 
O que nos leva a que conclusão?
AGENOR 
Obviamente o assassino teria que ser...você...
LIDIANE 
Pretende se apossar do meu estojo de maquiagem, das minhas calcinhas?
AGENOR (Surpreso)
Não é possível! Não pode ser... Tem um sujeito me imitando, agindo nessa mesma região. Foi ele! Teve uma vez que matei uma velhinha e ele matou outra igual. É um maluco! Só um desequilibrado pra agir dessa maneira.
LIDIANE 
Ou alguém querendo se esconder. O ‘Noturno’ está sendo caçado pela polícia. Esse outro não. Essa outra...
AGENOR 
Então é você?
LIDIANE 
Pois é. Mas não te imito. Não gosto de desovar ninguém em pedreira abandonada e é raro usar arma curta. Aliás, por falar em velhinha, aquela que encontraram no córrego do sapateiro, foi você?
AGENOR 
Foi. Tava passando de carro e ela me ofereceu um folheto sobre dieta Vegana. Ou seja...alimentos tão saborosos quanto as forminhas de isopor onde são embalados...Matei ela. Não sou um monstro, também penso no bem comum. 
LIDIANE 
Quanto a motivação você foi perfeito. No seu lugar faria o mesmo. Mas por que te chamam de ‘Noturno’?
AGENOR 
Sei lá! Invenção de jornalista. Que nome mais doido. ‘Noturno’, que merda é essa? Parece que é um personagem de quadrinhos ou coisa assim. Quando te descobrirem vão te dar um nome bizarro. Jornalista adora inventar. A propósito... por que você matou a própria mãe?
LIDIANE 
Cigarro!
AGENOR 
Mas ela já tinha parado de fumar, Lidiane. E há muito tempo.
LIDIANE 
Mentira! Fumava escondido.
AGENOR 
Serio?!
LIDIANE 
Ficou meia hora sozinha aqui e empesteou as cortinas com cheiro de cigarro. Até na acupuntura eu tinha levado. Eu sempre dizia: mãe, o cigarro mata. O cigarro mata... Ela não acreditou.
AGENOR 
Bom...eu não gostava da sua mãe...também não gosto de cigarro, mas mesmo pra mim ta parecendo exagerado... Mas tudo bem, respeito sua decisão. Aliás...Porque você gosta de matar?
LIDIANE 
Sei lá... As pessoas ficam melhor mortas. 
AGENOR 
Grande verdade! Sempre ansiosas,infelizes...mergulham numa paz...numa tranqüilidade... Não se pode explicar tudo. Pra que serve a Mona lisa?! Pra gente olhar. Só isso. As pessoas não entendem a beleza pela beleza. A arte pela arte. Tudo tem que ter uma função,um propósito. 
LIDIANE (Espantada) 
Minha nossa! Enfim um rasgo de lucidez artística. Nem parece o sujeito que vai me trocar por prostitutas e um rol de eletrodomésticos. 
AGENOR 
A verdade é essa minha cara...eu e você...temos alma de artista... Confesso que você cresceu, e muito, no meu conceito. Sem ironia nenhuma: vai ser uma honra te matar.
LIDIANE 
Puxa... precisamos chegar numa situação extrema pra você me fazer um elogio. 
AGENOR 
Lembra daquele canto no Jardim Botânico? Que você adorava?
LIDIANE 
Que a gente viu os Tucanos?
AGENOR 
Esse!
LIDIANE 
Que-que tem?
AGENOR 
Vou desovar teu corpo lá!
LIDIANE (Alegre) 
Sério?
AGENOR 
Quer dizer...vai estar em estado líquido por causa do ácido. Vou te derramar nas raízes de um Flamboyant...Eles estão floridos nessa época do ano. 
LIDIANE 
To chocada... Você ser um assassino me surpreendeu, mais é sempre uma possibilidade, agora...romântico...eu nunca ia imaginar...
AGENOR
Sempre fui! Sempre. Será que dava pra você ficar em cima do plástico preto?
LIDIANE 
O luminol?
AGENOR 
Pois é... Um inferno. E depois você sempre reclama quando eu sujo o chão.
LIDIANE 
Reclamo com razão. Olha só o tamanho do plástico. Não tinha um pedaço maior? Essa porcaria é cotada em dólar, também funciona como tela plana?
AGENOR
Me pareceu grande na loja. E antes que reclame do ácido sulfúrico, eu tive que improvisar,não consegui ácido fluorídrico, que seria o ácido certo. Cogitei usar soda cáustica mas me veio a intuição de que você ia precisar de algo mais forte.
LIDIANE 
Vou encarar como mais um elogio. Prefere que eu fique de frente ou de costas?
AGENOR
Não cometeria a deselegância de atirar numa ‘colega’ pelas costas. Quer dizer alguma coisa? Suas últimas palavras, um pecado que só se confessa no leito de morte... A hora é agora.
LIDIANE 
Eu sou uma mulher sem pecado.
AGENOR 
Nem um amante? Nesses anos todos?
LIDIANE (Irônica)
Você ta com tempo pra gente conversar? Teria uma hora e meia pra mim? 
AGENOR (Entendendo a ironia)
Ta,ta...vamos pular essa parte.
LIDIANE
Na verdade homem é muito problemático. Matar eles é bem mais divertido. Aqueles drogados que acharam no paredão da fábrica ,fui eu. Nada a ver com guerra de quadrilha, polícia adora esse tipo de desculpa. 
AGENOR
Mas foram três duma vez?! Como conseguiu?
LIDIANE
Eu tava no morro, bem longe com um rifle, escondida numa moita. Uso um rifle de precisão, atiro de longe pra poder fugir devagar. Os caras tavam chapados. Eu derrubei o primeiro, o cara do lado o cutucou pra ver o que tinha acontecido. Derrubei ele também, o terceiro tentou correr mas tava tão chapado que tropeçava nas pernas. Daí acertei ele. Foi tão engraçado, parecia comédia da sessão da tarde. Muito legal. (Ri)
AGENOR
O barato é isso, a coisa sempre tem um lado cômico. Pera aí... É por isso que você vivia assistindo documentário sobre atiradores de elite, sniper e etc? Sempre achei meio esquisito uma mulher gostar desse tipo de coisa. E toda vez que eu chegava perto você desligava ou trocava para outro canal.
LIDIANE
Sou apaixonada por isso. Desde pequena. Eu praticava na fazendo do meu avô. Pegava escondido a espingarda dele. Pra abafar o barulho eu colocava uma batata no cano. Era uma dificuldade pra mirar, além disso a batata pesava, não tinha como fazer tiro livre, só apoiado. 
AGENOR
Nossa...Que mulher prendada...Consegue usar uma batata como silenciador. Lembra quando você tentou fazer purê e ficou todo empelotado e com pedacinhos de batata crua no meio?
LIDIANE
Mas aí meu avô começou estranhar o sumiço da munição...os animais mortos...uma vizinha que do nada levou um tiro na perna...Mas isso foi acidente.
AGENOR
Acidente?
LIDIANE
Ela falou acidentalmente o que não devia e acabou com um tiro na perna. 
AGENOR
Bom...pelo menos você mirou na perna.
LIDIANE
Mirei coisa nenhuma! Me preocupei com o barulho e coloquei uma batata pesada demais no cano. Vaca de sorte! E mesmo sem batata , uma espingarda é um peso danado pra uma menina de sete anos. Eu tinha que estar com as costas apoiada em algum lugar por causa do recuo da arma. 
AGENOR (Espantado)
Nossa...você não brincava de boneca não?
LIDIANE
Claro que sim. Porque a pergunta?
AGENOR
Não,nada... Pera aí, sniper tem técnicas de deslocamento e camuflagem, as roupas que usam tem até um nome... Isso explica aquele seu sobretudo esquisito. Claro! Todo troncho, misturando tecido que não tinha nada a ver e com um corte que parecia feito por uma costureira bêbada que tem um enfarte, fica sequelada e ainda assim continua costurando. Aquele papo de que era de uma estilista, que era caríssimo, me pareceu mentira na hora. Agora to entendendo. Era uma camuflagem sniper! Aquilo quebrava totalmente a simetria humana e te incorporava a paisagem. Uau!
LIDIANE (Tom professoral) 
O nome da camuflagem sniper é Ghillie Suit. A costureira bêbada,infartada e sequelada é mesmo uma estilista talentosa, que acabou de ser integrada numa das mais famosas casas de moda francesa. E você é um bosta que não entende nada de moda!
AGENOR (Sem graça) 
Ah ta...foi mal...desculpa aí...
Som de alguém abrindo a porta. Agenor esconde a arma sob a blusa. 
LIDIANE
Deve ser a Olivia.
AGENOR
Quem é Olivia?
LIDIANE
A diarista nova.
AGENOR (Estranhando)
E a Dona Mirtes?
LIDIANE
Não trabalha mais aqui...é uma longa estória.
AGENOR
Se livra dela! Tem duzentos litros de ácido sulfúrico, o suficiente pra dissolver as duas. 
Entra Olivia. 
OLIVIA (Entrando. Olha com estranheza para Agenor. Olivia tem uma postura insolente, enxerga os patrões como aproveitadores, um mal necessário. Sendo diarista prioriza o trabalho que seja mais vantajoso para ela, podendo pular de um para outro conforme o seu interesse.Trata Lidiane e Agenor com um certo desprezo.) 
Boa tarde dona Lidiane... Desculpe perguntar, mas esse não é aquele das fotos que mandou jogar fora? Seu ex-marido?
LIDIANE
É. É ele sim.
AGENOR (Incomodado com o comentário e pelo tom insolente de Olivia)
Como é que é? Algum problema?
OLIVIA
Depende...vocês voltaram?
LIDIANE
Não é o momento para esse tipo de discussão Olivia. Estamos resolvendo um assunto de família aqui.
OLIVIA
Família? Então vocês voltaram?
AGENOR
Que-que-ce tem com isso garota? (Para Lidiane) Você contratou ela como nova empregada ou nova patroa? Você jogou as fotos do casamento fora?
LIDIANE
Não! Só as fotos onde você estava.
AGENOR (Indignado)
Como é que é?
LIDIANE
Tem dó! Eu ia querer fotos suas pra quê?
AGENOR
Pra lembrar os ‘bons momentos’. Lembra? Você falou deles minutos atrás ajoelhada nesse chão.
OLIVIA (Contrariada)
Ah não...voltaram mesmo. Vai me desculpar dona Lidiane mas quando eu entrevistei a senhora, ficou claro que seria uma pessoa só na casa. Eu não trabalho pra mais de uma pessoa , pra gente muito idosa e detesto criança e cachorro. 
AGENOR (Sarcástico)
Então Gato pode? 
OLIVIA
Também não. Quando falei cachorro quis dizer qualquer tipo de animal. 
AGENOR
Pera aí... (Para Lidiane) Ela te entrevistou? O politicamente correto chegou a esse ponto? Eles que entrevistam os patrões? Ta lembrada do que aconteceu com sua mãe depois que ela fumou um humilde cigarrinho e deixou cheiro nas cortinas?
LIDIANE
Não se mete Agenor. Você vive com a cabeça na Lua e não tem noção de como é difícil encontrar empregada hoje em dia. 
OLIVIA (Corrigindo)
É colaboradora. Empregada soa ofensivo. 
AGENOR (Para Lidiane, irônico.)
É colaboradora que fala...
LIDIANE (Tentando controlar os nervos)
Olivia...por favor...você não chegou em boa hora. Estamos discutindo um assunto de família aqui. Volta pra casa...outro dia a gente conversa.
OLIVIA
Então é oficial? Vocês voltaram mesmo. São de novo uma família?
LIDIANE (Quase perdendo o controle)
Olivia querida...você está dispensada por hoje. Não vai precisar trabalhar...volta pra casa...outro dia a gente conversa...
OLIVIA
Ah não! (Ela senta-se no sofá sob o olhar espantado dos outros dois, deixando claro que vai ficar) São três conduções pra ir e pra voltar. Quem paga isso? Vai sair do meu bolso?
Agenor e Lidiane trocam olhares entre si. A partir desse ponto eles assumem um ar mais sinistro, dirigindo olhares sempre longos e maldosos para Olivia. 
AGENOR (Para Olivia)
Você sabia que o Brasil é um dos campeões mundiais de acidente de trabalho?
OLIVIA (Sem entender) 
Ta...e o que isso quer dizer?
AGENOR
Quer dizer que aqui as coisas dão errado de um jeito que a gente nem imagina. 
OLIVIA
Olha dona Lidiane, eu nem ia trabalhar com a senhora. Não ia. Abri uma exceção porque vi a dificuldade que a senhora tem pra cuidar da casa sozinha, sem saber lavar, limpar, cozinhar.
AGENOR (Para Lidiane, irônico)
Acho que ela vai te demitir. 
OLIVIA
Só aceitei porque era uma mulher sozinha. Mas com o seu marido, muda tudo. Ainda mais se ele for do jeito que a senhora falou. Tenho uma amiga que trabalha pra uma mulher com filho deficiente. Por mais que ela faça o trabalho não rende.
AGENOR (Horrorizado) 
COMO É QUE É? (Para Lidiane,furioso) O que você falou pra ela?
LIDIANE (Desconcertada)

Nada! Olivia você entendeu errado, eu disse que ele era problemático e não que tinha ‘problema’. E nós não estamos juntos. Nunca mais! Eu pago sua condução! Ida e volta. (Procura a carteira) Pago também a sua vinda , num outro dia, pra gente conversar. Hoje você descansa. Não precisa trabalhar, vai pra casa...vai na manicure, no cabeleireiro...cuide de você...(Para si mesma) antes que alguém faça isso...
OLIVIA
E a minha diária?
AGENOR/LIDIANE
O q uê?
OLIVIA
A minha diária.
LIDIANE
Que diária? Você não vai trabalhar hoje. 
OLIVIA
Mas eu perdi meu dia vindo aqui. Vou ficar no prejuízo?
LIDIANE (Vendo que não tem dinheiro na carteira suficiente, para Agenor)
To sem dinheiro aqui. Paga pra ela...depois eu te dou.
AGENOR
Nem ferrando! Ela vem aqui, não trabalha, nos insulta e ainda recebe? E você não terá um ‘depois’pra me pagar. 
OLIVIA
Eu não quero ganhar sem trabalhar não gente. Faz assim... Continua aí com a reconciliação de vocês que eu vou ajeitando a casa. Olha só a bagunça. (Aponta para o tambor de ácido sulfúrico. Agenor e Lidiane trocam olhares preocupados) Isso é ácido sulfúrico. Não tem como reaproveitar a embalagem. E bem coisa de homem: ‘Nossa...vou lavar bem lavadinho e aproveitar o tambor’. Não pode! Isso é produto químico. (Para Agenor) O senhor encheu ele com o que?
AGENOR
Com...com...com glicerina.
OLIVIA
Nossa...isso tudo? E vai fazer o que com tanta glicerina?
AGENOR 
Sabonete! Depois saio pela rua vendendo. 
OLIVIA (Estranhando,sem acreditar)
Sério? E o senhor tem licença da prefeitura?
LIDIANE (Perdendo a calma)
Agenor pelo amor de Deus! Todo condenado tem direito há um último pedido...o meu é que pague a diária pra ela dar o fora daqui!
OLIVIA
Ta vendo? Por isso que não trabalho pra casal. É só confusão. É um tal de volta e separa, volta e separa...A senhora desculpe a sinceridade mas não é mais uma menina não dona Lidiane, pode ta perdendo um tempo que não tem. (Lidiane dá um olhar furioso para Olivia, Agenor tapa a boca para não rir). Mulher com dinheiro coloca fé demais em plástica. Plástica nenhuma vai te fazer competir com uma piranhazinha de vinte anos. (Agenor cai na risada)
LIDIANE 
Agradeço pelo conselho...e pela preocupação... (Para Agenor) Paga logo a porra da diária! 
AGENOR
Nem ferrando! Seria um abuso. Uma exploração. Onde já se viu? É uma pena não ter tempo pra ser apresentada ao meu contador.
OLIVIA
Contador? Que que tem que ver? Eu não entendo quase nada que seu marido fala...
AGENOR
Tanto faz, entendendo ou não vai descordar mesmo. 
OLIVIA
O senhor fala tudo pela metade e não explica. Essa coisa de glicerina, vender sabonete na rua...que coisa tosca. Deve estar usando o tambor pra estocar água. 
Sua mulher disse que era meio doido mas era engraçado. E não meio bobo. Vai ver foi por isso que confundi, o menino deficiente que minha colega cuida é igualzinho o senhor. (Dessa vez é Agenor que dirige um olhar furioso para Olivia, Lidiane tapa a boca para não rir). Conforme as coisas soltas vão aparecendo na cabeça ele vai falando. Piriga alguém não entender, achar que é assédio sexual e processar o senhor. Olha o perigo...Homem que vai pra cadeia por isso não tem vida fácil não. Se é que o senhor me entende...
Lidiane cai na gargalhada. 
AGENOR (Mal consegue falar de tanta raiva) 
Ok...você venceu... (Pega a carteira) Não sou um mal perdedor...Não tem como argumentar com você... (Retira algumas notas da carteira) Faz assim...(Entregando algumas cédulas para Olivia) Vai na casa de material de construção aqui do lado e compra uns três metros desse plástico preto. (Aponta para o plástico preto forrando o chão) 
LIDIANE (Irritada tirando a carteira da mão dele.)
Dá essa merda aqui! (Retira mais algumas notas da carteira e entrega para Olivia) Compra dez metros dessa porcaria. (Para Agenor) O que sobrar a gente joga fora. É só plástico preto. E se for parar em algum oceano e algum bicho comer achando que é alga, pior pra ele! Um bicho tão burro que não distingue sabor de alga e de plástico não tem chance na seleção natural. Tem que ser esperto pra sobreviver. Foi por isso que o homem de Neandertal se fudeu!
OLIVIA (Sem entender nada) 
OK...já volto.
Olivia sai. 
LIDIANE
O seu ‘Contador’, o novo gênio da sociologia, não vai nos trocar por ‘diaristas’, além de prostitutas e eletrodomésticos?
AGENOR
Ta...o quesito ‘diarista’ precisa ser trabalhado. Felizmente as mulheres tem um desempenho bem melhor quando se tornam prostitutas... Por favor não se ofenda.
LIDIANE (Irônica) 
Claro que não...soou como um elogio. 
AGENOR
Como suporta uma criatura dessas e dá cabo da própria mãe por causa de um simples cigarro?
LIDIANE (Irritada)
Mãe é mãe...
Agenor fica completamente confuso com a resposta. Espera que ela complete a frase,o que não acontece.
AGENOR
E...
LIDIANE
E o que?
AGENOR
Que mais?
LIDIANE
Mas nada. Mãe é mãe...
AGENOR
Nossa...Deve ser por isso que serial killer tem essa má fama. Em termos práticos você até tem razão. Mas as vezes não sente que tem algo de errado na sua linha de raciocínio?
LIDIANE
Não.
Olivia volta.
OLIVIA
Onde eu coloco?
AGENOR
Forra o chão da cozinha com ele.
LIDIANE
Cozinha coisa nenhuma. Faz isso lá fora.
AGENOR
O ‘seu’ está na sala e você não reclamou.
LIDIANE
Sou a dona da casa e não uma serviçal.
OLIVIA
‘Serviçal’, dependendo da entonação, soa ofensivo também...
Agenor e Lidiane trocam olhares contrariados, espantados com a insolência de Olivia.
AGENOR (Para Lidiane) 
É...acho que você tem razão...Mãe é mãe...(Para Olivia) Vossa senhoria poderia estender esse filme de polímero preto no chão da lavanderia? No espaço entre o banheirinho e as máquinas de lavar. Da forma que vossa senhoria escolher, confio no seu julgamento.
Olivia sente que tem algo estranho,mas não sabe o que. Olha para o plástico que tem nas mãos, olha para o barril de ácido sulfúrico. Fica pensativa.
AGENOR
Algum problema?
OLIVIA
Não...parece que to deixando escapar alguma coisa importante... (Olha de novo o plástico, depois para o barril de ácido sulfúrico) Bobagem! Deve ser impressão. Vou estender o plástico. 
Ela sai. Agenor saca a arma.
AGENOR
Agora é resolver essa luta de classes. (Mostra a arma) Do jeito tradicional. E você chega aqui pro fundo. (Posiciona Lidiane mais ao fundo) Assim consigo te ver de lá. (Lidiane ameaça falar, Agenor se antecipa) Não! Você não pode participar.
LIDIANE (Tom de criança decepcionada) 
Aaaaahh....
Agenor sai. Diálogos dele e Olivia seguem em off da lavanderia. Lidiane fica esticando o pescoço pra tentar ver o que acontece.
OLIVIA 
Ai meu Deus! Que isso?
AGENOR 
Uma arma. E sim! Eu sou mesmo doido e você fala pra cacete! Empregada dos infernos! Quer dizer...’Colaboradora’.
OLIVIA
Não! Pelo amor de Deus! Pode ficar com meu dinheiro! Ta na minha bolsa. Tem pouco dinheiro, mas tem bastante vale-transporte e ticket refeição!
AGENOR (Indignado) 
E ainda me chama de ladrão? 
OLIVIA
Tem o celular também! É novinho...
AGENOR
Como é que é? Ta ouvindo Lidiane? (Ela balança a cabeça que sim) Além de débil mental ela agora me chama de assaltante. Onde já se viu um patrão assaltar a própria empregada?
LIDIANE
É colaboradora...
AGENOR
Um patrão assaltar a própria ‘colaboradora’? 
OLIVIA
Não,não! É presente! Pode ficar! O celular ta cheio de App. Tem a última versão do jogo Pokemon! 
Som de 3 tiros abafados de silenciador. Um grito de Olivia e o som dela caindo no chão. Agenor volta irritadíssimo.
AGENOR (Ar ofegante,enxuga o suor da testa com as mãos)
Da pra acreditar? Primeiro me chama de débil mental e depois de assaltante, ladrão de celular e ainda tenta me corromper com vale-transporte e ticket refeição. Mesmo tentando salvar a própria vida ela ainda me insulta. Como é que pode uma criatura dessas? Eu tenho cara de quem joga Pokemon?
LIDIANE
E acredite, essa é das boas. Que trabalha melhor, por isso é meio folgada.
AGENOR
‘Meio folgada’? Ela quase me mata de raiva. Isso não foi assassinato,foi legítima defesa. Nossa...ta quente aqui...ta abafado...
LIDIANE (Dando um sorrisinho maldoso) 
Ta não...Meio friozinho até.
AGENOR (Esfregando os olhos como quem está com vista embaçada. Engatilha a arma e aponta para Lidiane)
Onde estávamos antes dessa interrupção?
LIDIANE
Eu dizia que você é um bosta que não entende nada de moda. Daí você me entregou essa arma e disse que alguém assim não merecia mais viver. Então a Olivia apareceu...
AGENOR
Não, não foi isso... Lembrei! Chega mais pro centro do plástico. (Aponta) Quer dizer uma última frase,uma coisa dramática, talvez filosófica?
LIDIANE
Serve uma confissão?
AGENOR
Por favor.
LIDIANE
Eu matei sua mãe.
AGENOR (Rindo)
Não seja ridícula, minha mãe morreu num acidente de automóvel. 
LIDIANE 
Eu fiz um furinho no óleo de freio do carro.
AGENOR (Espantado) 
O carro tava cheio. Ela e mais quatro senhoras. Iam no bingo. Morreram todas!
LIDIANE (Dando de ombros)
Tive sorte.
AGENOR 
Ela derramou alguma coisa nas cortinas? Que eu saiba nunca fumou. 
LIDIANE 
Foi por nós dois! Ela queria a gente o natal e o Réveillon na casa da praia. A família toda! Até aquele seu tio esquisito, do cachecol. Sem falar do tormento que era escolher presente pra ela no dia das mães. Ela não gostava de nada! Essa parte eu sei que você gostou. Nem tenta fingir. 
AGENOR
Ta,num ponto ou outro você pode ter razão, mas ainda sim foi exagerado. Aliás...pera aí...um bocado de gente próxima andou morrendo nesses anos... Claro! Teve uma vizinha que brigou com você e quinze dias depois morreu afogada na própria banheira.
LIDIANE
Acontece...O que tem de estranho nisso?
AGENOR
Ela ter brigado com você quinze dias antes e a polícia encontrar traço de clorofórmio no corpo ...
LIDIANE
Ta...eu tenho alguma dificuldade em administrar conflitos. Não sou perfeita! As vezes perco um pouco o foco, podia ter matado o tio do cachecol ao invés da sua mãe, mas quando pensei nisso ela já tinha batido num caminhão de areia na Dutra...
AGENOR
De novo... Pessoas como você é que dão ma fama aos seriais Killer. Um serial Killer mata sem motivo e não por motivos banais. (Lembra de algo) Pera aí...aquela sua amiga, a Laurita. Ela caiu no poço do elevador... 
Lidiane se afeta pela pergunta. Por instantes tenta responder e não consegue, por fim fala.
LIDIANE
A polícia disse que foi acidente e a autópsia que foi morte por politraumatismo. Não quero falar nesse assunto! (Conclui secamente)
AGENOR (Enxugando o suor da testa com as mãos, fica mais ofegante)
Isso é tudo que tem a dizer?
LIDIANE
Não tive nada com a morte da Laurita. Nada! 
AGENOR (Aperta os olhos como quem está com a vista embaçada. Aponta a arma para Lidiane)
Ta, ta bom... Como diria Vinícius de Moraes: ‘ Que seja infinito enquanto dure.’ Quer o tiro aonde?
LIDIANE 
Na sua testa. Melhor...na sua língua.
AGENOR 
Boa...gostei. (Esfrega os olhos, respira fundo. Aparenta ter alguma falta de ar.)
Sabe que você cresceu muito no meu conceito? Podíamos até trabalhar juntos se eu não fosse te matar.
LIDIANE 
Não daríamos certo juntos. Você não me obedece e ainda faz coisas que eu não gosto. Por exemplo: tem um doce de leite na geladeira, daqueles de comer com colher...
AGENOR 
O que tem? E daí?
LIDIANE 
Tenho certeza que você foi lá, abocanhou um pedaço, enfiou a colher suja pra tirar outro pedaço e depois aplainou pra disfarçar. E claro, daqui à uma hora vai ter azedado.
AGENOR 
Nem abri a geladeira fique você sabendo. 
LIDIANE 
Duvido.
AGENOR 
To de regime. Não como doce faz dias. 
LIDIANE 
Jura por Deus?
AGENOR 
Claro que juro! Não estou entendendo como isso virou assunto? (Ofega) Ainda mais numa hora dessas?
Leva as mãos ao pescoço. Deixa cair a arma, ar de quem foi envenenado.
AGENOR (Caindo no chão) 
Maldita!
LIDIANE 
Ta vendo? Homem é assim. Morre mas não obedece. (Ela pega a arma) É nojento esse costume. Nojento. Não pode por num recipiente e comer? Precisa enfiar a colher, depois enfiar de novo? (Admirando a arma) Bonito esse silenciador, o meu já ta velhinho. É Russo?
AGENOR (Sempre no chão,voz esganiçada) 
Israelense...
LIDIANE 
Vem pra cima do plástico Agenor. E não adianta golfar nem vomitar, o veneno já ta na corrente sanguínea...Ce vai morrer querido. Então não faz sujeira...
Ele rola para cima do plástico.
AGENOR 
Eu não quero morrer...
LIDIANE 
Pensa pelo lado positivo. Daqui a minutos vai saber se existe vida após a morte....
AGENOR 
Lidiane...deve ter um antídoto...
LIDIANE 
Não tem Agenor. E se tivesse eu não ia te dar... Quer mais um pouco de doce de leite?
AGENOR
Porque preparou doce com...veneno? Nem...nem sabia que eu vinha aqui...hoje...
LIDIANE
Eu sabia que viria um dia. Daí venho preparando doce com veneno sempre. Não pensa que foi fácil. Outro dia tive que sair e deixar a dona Mirtes, a antiga diarista, sozinha aqui em casa. Falei pra ela: “Dona Mirtes deixei um pudim de laranja na geladeira, mas por favor, não toque nele.” Se ofendeu! “Imagine se eu iria mexer,dona Lidiane. Deus me livre!” Quando voltei encontrei ela morta na lavanderia. A Olivia veio depois disso... (Apontando) E também acabou morta na lavanderia. (Balançando a cabeça negativamente) Não do sorte com empregada... Preciso mandar benzer essa lavanderia. Deve ter alguma coisa errada com ela.
AGENOR (Se encostando no tambor de ácido sulfúrico)
Foi você não foi? A... a Laurita. Matou ela...
LIDIANE (Voz alterada)
Já falei pra não falar nisso! Posso ser muito boa, mas tenho um lado mal que você não vai querer conhecer.
AGENOR 
Então até agora foi o lado bom? Que...que o lado mal tem de pior? O bom me envenenou e espera eu morrer pra me dissolver no ácido sulfúrico...
LIDIANE
O lado ruim pode te colocar ainda vivo no ácido pra ganhar tempo e fazer você calar a porra da boca... 
AGENOR (Assustado)
Brincadeira...brincadeirinha...imagine, a Laurita era sua melhor amiga, ela te adorava...Fa...falei sem pensar. Deve ser o veneno corroendo os neurônios...bobagem...(Tentando desviar o assunto, ajeitando o plástico preto) Se tava certa, devia ter comprado um plástico maior...Gozado como é difícil calcular de cabeça área e volume...
LIDIANE
Melhor assim... E a Laurita nunca foi minha amiga. Nunca gostou de mim! (Dirige o olhar para outro ponto, fala como se estivesse diante de Laurita. Brande a arma enquanto fala. Agenor acompanha espantado o diálogo fantasma) É isso mesmo! Você nunca foi minha amiga Laurita. Nunca! 
Tenho certeza...a primeira coisa que fez depois de morrer no poço do elevador,foi sair por aí dizendo que eu que te empurrei. Porque você é uma falsa Laurita! Uma falsa! (Tom de desafio, voz tomada de emoção) Prova que eu quero ver! Prova! Tem testemunha? Alguém viu eu te empurrando? Viu? Trás uma testemunha, uma só, que nós vamos agora na delegacia! Quero ver se é mulher pra falar pro delegado, na minha cara, que fui eu que te matei! Mas quero testemunha pra provar. A tua palavra pra mim não vale nada! Nada! Você é uma falsa que fala dos amigos pelas costas. Quero ver você provar!Eu não! O que tiver que falar, falo na cara Laurita! Na cara! Não mando recado não! Chego na cara e falo! Tá pensando que eu sou você? Eu não sou você não! Eu falo na cara! 
AGENOR (Gritando)
LIDIANE!
LIDIANE (Tomando um susto)
Que?
AGENOR
Chega! Eu já entendi. Não foi culpa sua. Esquece isso. Essas coisas acontecem. As pessoas andam distraídas e acidentalmente falam o que não devem e acabam mortas. Acontece. Não é culpa de ninguém.
LIDIANE (Ar totalmente perdido, de quem ainda não voltou do delírio.) 
E...a...a gente tava falando do que?
AGENOR
Da minha morte.
LIDIANE (Ainda confusa) 
Vo...você ta doente?
AGENOR
Não Lidiane. Você que me envenenou.
LIDIANE 
É!Ah é! (A partir daí ela retoma a normalidade) Não morre ainda não, me ensina como usa o ácido sulfúrico primeiro. Quanto põe de água?
AGENOR 
É puro...Depois acrescenta água aos poucos...quando tiver funcionando...
LIDIANE
Funcionando? Como vou saber?
AGENOR
Vou passar do estado sólido para liquido. Você vai notar a diferença...Daí vai acrescentando água... Tem ...toca ,mascara e luva no banheiro...
LIDIANE 
Graças a Deus! Nunca usei ácido. Solta muito gás? 
AGENOR
Solta... Mesmo com toca pode clarear um pouco seu cabelo...Não queria ficar loura? 
LIDIANE (Irônica)

Claro! O tom ‘louro ácido sulfúrico’ deve ser super natural. E deve deixar uma hidratação ótima no cabelo. Que gosto tem veneno?

AGENOR 
Doce de leite.... E nossa ...me deu uma sede...uma sede horrível agora...Água! Me trás água! Que sede horrível meu Deus...Água! Preciso de água!
LIDIANE
Calma! Não faz escândalo. Volto já.
Agenor se arrasta pelo chão, sai de cima do plástico preto.
AGENOR
Água...água...água...
Lidiane volta com um copo.
LIDIANE
Toma, toma!
Ela se inclina e coloca na boca dele. 
AGENOR (Cuspindo assustado)
Que isso?
LIDIANE
Doce de leite.
Agenor da um grito e tenta fugir. Lidiane tenta segurá-lo pela perna.
LIDIANE
Não posso te dar água! Corta o efeito do veneno. Come um pouco de doce de leite que a sede passa. Para de fugir!
Lidiane senta nas costas dele, Agenor tapa a boca com as mãos. 
LIDIANE
Para de fazer birra! Come logo esse doce.
Agenor se sacode negativamente. Ela tenta virar a cabeça dele com a mão livre.
LIDIANE (Tom de quem fala com uma criança)
Come bebê...Ta totoso...ta totoso bebê,come só um pouquinho. Come bebê...(Ela coloca o copo no chão e põe a mão na arma presa as costas) Come senão mamãe te dá um tiro!
AGENOR
Não! Não!
LIDIANE
Ah não? Vou acabar com essa manha é agora.
Ela vira ele de frente, Agenor tenta resistir mas não tem mais forças nos braços. Ela senta no peito dele e o obriga a comer (beber) o doce a força. Agenor urra e tenta resistir.
LIDIANE 
Tudinho! Tudinho pro bebê ficar fortinho...
Ele bebe, ela confere o que restou no copo.
LIDIANE
Ta vendo? Ficou só um pouquinho. (Pega ele a força de novo) Bebe o resto!
Agenor, entre urros e tentativas sem sucesso de se libertar, toma todo o veneno. 
LIDIANE
Pronto. Precisava esse charme todo?
AGENOR
Que tipo de monstro é você?
LIDIANE
O seu! Só que melhor...
Ela senta-se no chão, apóia a cabeça de Agenor na sua perna. Luz foca apenas nos dois. Agenor está mais fraco, voz baixa e sem forças para se mover. Atrás deles o tambor com ácido sulfúrico. 
LIDIANE
Ajeita a cabecinha no meu colo. Bebê vai fazer soninho agora... 
AGENOR
Promete não me dissolver junto com a ’colaboradora’? Promete? Não quero chegar no inferno em estado liquido, numa garrafa PET e dissolvido com ela...
LIDIANE (Achando graça)
Nossa! Ia ser um refrigerante e tanto. Mais vai saber...o diabo pode curtir.
AGENOR
Será que existe vida após a morte? 
LIDIANE
Mais uns três minutos, cinco no máximo, você vai estar sabendo. A resposta com certeza é não. Mas se um anjo aparecer e quiser discutir seus pecados, negue tudo! To falando sério, nega até onde puder, depois tente colocar a culpa em alguém. Faz assim, diz que a culpa de tudo é da sua mãe. Vai que da sorte e pega um anjo da linha Freudiana. 
AGENOR
Mas e se for um Anjo ‘Vegano’? Como vou explicar a velha que quebrei o pescoço e joguei no córrego? Anjo não gosta de sexo e nem de comida, Vegano é praticamente isso.
LIDIANE (Estranhando)
Vegano não gosta de sexo?
AGENOR
Pode até gostar, mas como uma pessoa subnutrida, com carência de proteína, ferro,cálcio,zinco e vitamina B-12 vai ter disposição pra sexo? (Tosse) O máximo que consegue é se manter viva e divulgar essa dieta cretina. Pelo menos até uma pessoa sensata quebrar o seu pescoço... 
LIDIANE
Já sei! Diz que quebrou o pescoço da velha porque ela parecia com sua mãe e não porque era Vegana. Aposta tudo em Freud! 
AGENOR 
E se for o diabo em pessoa?
LIDIANE
Aí é fácil! Faz uma cara bem alegre, da um sorriso, faz sinal de positivo e pergunta: ‘E aí? Mandei bem?’. Impossível ele dizer que não. 
AGENOR
O que ta acontecendo com a luz? Ta ficando escuro...
LIDIANE 
Nada seu bobo. É você que ta morrendo. A sede passou?
AGENOR
Passou.
LIDIANE
Ta vendo? Não falei pra você? (Ela acaricia o cabelo dele ternamente) 
AGENOR
Ta tudo se apagando...eu to morrendo...( Segura no braço dela, ar de quem está nas últimas )
Lidiane!
LIDIANE
Que foi?
AGENOR
Não ...não joga o ácido duma vez...senão espirra...
LIDIANE
Pode deixar, vou colocar devagarzinho... Será que vai deixar cheiro nas cortinas?
AGENOR (Nas últimas)
Se ...se soubesse que eu ia parar na banheira, tinha trazido ácido fluorídrico. O sulfúrico não vai me dissolver direito...Vai ficar igual o seu purê de batata...pastoso e com pedacinho cru no meio...
LIDIANE
Ta bom querido,faz naninha agora...
AGENOR
Lidiane...
LIDIANE
O que foi? Nossa... ta demorando muito Agenor... (Ela levanta, saca a arma) Vai levar um tempão pra te dissolver no ácido. E ainda tenho que me livrar da Olivia, limpar a casa. Outra hora a gente conversa com mais tempo, agora vou ter que te matar... (Aponta a arma) Não fica chateado. É igual no cinema quando passa os créditos. Não precisa assistir até o fim, você levanta e vai embora. 
AGENOR 
Não... eu já to...indo...posso te ...pedir...uma última coisa?
Ela agacha. Coloca a cabeça dele no colo de novo, ar terno.
LIDIANE
O que querido?
AGENOR 
Me derrama...no jardim botânico...nos tucanos... queria ter um fim...bonito....
LIDIANE
Não complica Agenor. Você vai estar em estado líquido é só abrir o ralo. Mas olha...cê vai ter um fim bonito querido...(Ar de quem faz uma linda e poética descrição) Assim que abrir o ralo da banheira cê vai cair no esgoto,passar pelas galerias, desaguar no rio pinheiros e seguir rio abaixo, passando pela marginal, pela Ponte Estaiada , pelos prédios da Globo... e depois ... se dissolver ...lentamente...no meio da bosta...amor....
Agenor morre. Luz escurece totalmente.

FIM

REGISTRO: 2670/14 e 11.903

Textos estão protegidos pelas Leis brasileiras de Direito Autoral. É obrigatório que se solicite permissão para ser montado. Não fazê-lo será passível de ações legais. Para solicitação, falar com o autor DURVAL CUNHA pelo e-mail: altamirando66@hotmail.com.